Em tempos de greve

Escrevo essas linhas ainda no calor da crise gerada pela greve dos caminhoneiros. Crise essa de enormes proporções no cotidiano, longe ainda de ser resolvida e onde nós, profissionais da área de relações públicas, além de exercitarmos nossos dons para amenizar os impactos nas ações e operações dos clientes, temos a obrigação de tentar analisar, entender e discutir como a comunicação se desenrolou no episódio.

A primeira lição é o desafio de compreender algo tão complexo, com tantas informações envolvidas, para tomar decisões acertadas e ter opiniões consistentes em tempo hábil. E isso foi o que menos se viu. Primeiro era uma greve de caminhoneiros, depois virou locaute, a Petrobras voltou a derreter, começou a faltar combustível e o país foi freando enquanto o governo, lento e sem credibilidade, titubeou e demostrou fraqueza, falta de representatividade e uma comunicação pra lá de questionável para gerir a crise.

Na realidade, podemos comentar a comunicação que não houve durante o episódio considerando que a ela começa com o entendimento da situação, com suas reais e potenciais consequências e a identificação de todos os grupos de interesse. Nesse caso, teríamos que incluir aí toda a população brasileira. E aí avaliar a mensagem que se quer e necessita transmitir, de acordo com o que se espera de resultado.

Esmiuçando um pouco mais, entram fatores como teor da mensagem, formas de abordagem para cada grupo de interesse, canais específicos, timing e análise rápida da repercussão, caso seja necessário mudar a rota. E, por fim, contar com pessoas e políticos mais preparados para segurar a onda diante da opinião pública, agindo mais e reagindo menos.

O que de fato funcionou foi o whatsapp dos caminhoneiros. A ferramenta se consolidou como a mais revolucionária arma de organização e comunicação da atualidade, onde grupos do aplicativo, com ligeireza invejável, deram uma aula de liderança, concatenação e engajamento em todo o território nacional. O resultado é um país estacionado, faminto e com a garganta seca.

Aqui na agência nos restou usar o whatsapp de maneira mais comedida, e com a ajuda do e-mail e de alguns telefonemas, bem como da agilidade e o bom senso de sempre, conseguimos comunicar o adiamento de reuniões, eventos e iniciativas as mais diversas de nossos clientes, planejadas com esmero e agora empurradas mais para frente no calendário. Pequenas crises que, diante de outras tantas inúmeras crises, transformam-se em desconfortos e na sensação de vivermos num país de segunda, ou melhor, terceira categoria.

Muita energia jogada no lixo, mas um novo aprendizado para o currículo profissional. O importante é não perder a cabeça e usarmos nossos conhecimentos para equacionar os transtornos dos clientes com uma comunicação ágil e informativa, mesmo que estejamos sem combustível no carro. Por ora, whatsapp não precisa de gasolina para ser entregue, o pior será quando fizerem greve, ou locaute, de sinal de internet …

Enfim, sigamos, por curiosidade e obrigação, a tentar entender tudo o que aconteceu e está ainda ocorrendo para termos uma opinião mais consistente sobre a crise e suas causas, e não só palpites carregados de emoção, e assim ficarmos mais capacitados a tomar as melhores decisões de comunicação.

Gustavo Junqueira / Jornalista

Foto: Tânia Rêgo – Agência Brasil

Tânia Rêgo_Agência Brasil

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