Horizonte Vertical

O vídeo e foto das bailarinas russas do Teatro Bolshoi se contorcendo em volta de uma tela de celular para acompanhar o jogo da Copa do Mundo entre Rússia e Espanha viralizaram após terem sido postados pela bailarina brasileira Bruna Gaglianone em sua conta no Instagram.

A bela imagem, inevitavelmente plástica e até bem enquadrada, ecoando as pinturas de Degas, mestre no retrato do mundo da dança, apenas reforça que o uso dos telefones móveis e inteligentes para registro e visualização de imagens é o futuro. E ele é vertical.

A imagem foi registrada no instantâneo momento que antecedia a entrada das dançarinas no palco e a minutos do fim do jogo que levou a seleção da Rússia para as quartas de final da Copa. Talvez não houvesse outro modo de registrar a cena, se não por um celular. É certo que só seria possível as bailarinas acompanharem o fim da partida pelo aparelho móvel. Elas estavam na coxia do teatro, a poucos passos do aplauso do público, lugar onde não há televisão.

Reparem na foto e vídeo das bailarinas que o celular está na posição usual de manuseio do aparelho, a vertical. Por que elas não viraram a tela para ver melhor o jogo? Não deu tempo de pensarem nisso ou o hábito de ver a vida passando pela tela do telefone já não ativa mais o antigo cérebro telespectador de cinema e televisão, espaços tradicionais da tela horizontal? Ou para elas o melhor é ver na vertical mesmo?

Ainda não temos como responder essas questões. Mas o estudo publicado pela The Zettabyte Era nos dá algum horizonte. Até 2021, o tráfego de vídeos na internet responderá por 82% de toda a circulação de dados pelo meio digital. Desse total, estima-se que 13% serão vídeos produzidos ao vivo por usuários comuns que, quase sempre, gravam as imagens em formato vertical.

E tem mais. Dados da agência digital We Are Social dizem que entre abril e junho de 2017 o uso de celulares para acesso à internet superou o uso de computadores, atingindo 51,4% do total.  Cerca de 2 bilhões de pessoas no mundo, num universo de 3,8 bilhões de internautas, estão ligados à rede via celular.

Essa mudança de hábito tem consequências no modo como veremos e registraremos as imagens. O celular parece nos induzir a enquadrar vídeos e fotos na moldura vertical, no convencional modo retrato.  Vivemos já há anos a era da selfie, do autorretrato digital.  Registramos e postamos diariamente vídeos na vertical. Vejam o Instagram que acabou de lançar o canal IGTV, que permite a postagem de vídeos mais longos. A aposta é num horizonte vertical para o consumo de vídeos cada vez mais longos. FaceBook e Youtube já haviam feito investimentos para se tornarem mais amigáveis ao mundo visual vertical.

O tradicional modo de ver cinema e TV em telas horizontais vai morrer? Teremos televisões no futuro que vão parecer telas gigantes de celular? Quem sabe? Mas dá para apostar que os usuários das redes sociais e de telefones móveis só vão aumentar e, por consequência, as imagens serão cada vez mais verticais. A maioria deles, especialmente os jovens, não muda o aparelho para a posição horizontal nem mesmo sob a ameaça de desconexão com a internet imediata. É um hábito, dizem especialistas.  A pesquisa da consultoria Deloitte aponta que 68 % das pessoas usam o celular enquanto fazem uma refeição, 80% durante um bate papo com amigos e 81% diante da TV.

Em artigo do jornalista e professor Edson Rossi, publicado no caderno Ilustríssima, da Folha de S. Paulo, em setembro de 2017, no qual pesquei estes dados e informações que pipocam pelo texto, o antropólogo italiano estudioso da contemporaneidade, Massimo Canevacci, afirma que “o conceito central na comunicação digital é a experiência do sujeito”. Quando ela muda, tudo se transforma junto. E acrescenta que o que determina hoje o consumo de imagens é a máxima “em qualquer lugar, a qualquer momento, em qualquer espaço”.

As ideias do antropólogo ajudam o autor do artigo a concluir que, independente da discussão entre prós e contras em relação às imagens verticais ou horizontais, o que há é um conceito renovado de plateia.  “Não existe mais público no sentido do coletivo, o assistir coletivo criado pelo cinema e consolidado pela televisão. O que há agora é um público no sentido do conectivo”, diz Canevacci. Quem viver e estiver conectado, verá na vertical ou na horizontal.

Rodrigo Pinto / Jornalista

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