O tempo voa e também anda de ônibus

Quando estamos sem assunto, sempre falamos sobre o tempo, a sensação dos dias que passam rápido ou demoram demais pra acabar, as variações do clima, que também chamamos tempo. Em conversas de elevador, na fila do supermercado, tão presente e invisível como o ar que respiramos, está ele, o tempo a nos espreitar.

Revi recentemente um belo filme que talvez fale sobre como é possível encontrarmos poesia na passagem do tempo, dos dias simples. Paterson, de 2016, dirigido pelo cineasta norte-americano Jim Jarmusch, acompanha os deslocamentos do motorista de ônibus que é poeta. Em certa altura dos seus repetidos trajetos diários conduzindo o veículo, o motorista poeta pensa em um poema que está escrevendo:

“Quando você é criança, aprende que o mundo tem três dimensões. Altura, largura e profundidade. Como uma caixa de sapatos. Então depois você fica sabendo sobre uma quarta dimensão. O tempo.”

Quando crianças não vemos o tempo passar, imersos em brincadeiras. Adultos, não raro falamos “não tenho tempo de fazer nada”. É fantástica essa frase, não? Estaríamos literalmente clamando para que o tempo pare? Porque é impossível não fazer nada. Mesmo parados, se fosse possível não pensar em praticamente nada, o tempo corre, faz seu trabalho.

O ano começou cheio de expectativas e incertezas, como sempre começa. Um novo governo, reformas vão acontecer, a economia vai melhorar, muitas perguntas. E daí somos surpreendidos com ação implacável do tempo: rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, temporal no Rio de Janeiro, incêndio no centro de treinamento do Flamengo, a morte do jornalista Ricardo Boechat. Acidente, tragédia, descaso, crime, destino… nossas mentes e corações assustados e confusos buscam explicações.

Mas tem sempre alguém pra dizer. “2019 nem bem começou e quanta tragédia já aconteceu.” No fundo, acredito que sabemos que o ano não tem nada a ver com isso. Mas diante de acontecimentos como esses somos obrigados a encarar a fúria do tempo de frente. O tempo que ceifa vidas por falta de investimentos em segurança, urbanismo, saúde, e também por mera fatalidade. O tempo que vemos quando olhamos no espelho de olhos bem abertos ou mesmo fechados, quando deitados no escuro do quarto, refletimos sobre nossas vidas.

O tempo realmente voa, como fala o ditado, mas também anda de ônibus, como o belo filme Paterson parece nos sugerir. As tragédias e mazelas irrompem e são impossíveis de serem ignoradas. Já a poesia, simplicidade, belezas e alegrias da vida nem sempre estão visíveis assim de cara, mas estão aí, esperando pelo nosso olhar. Como diz o lindo samba do Paulinho da Viola, “as coisas estão no mundo só que eu preciso aprender”. Que tenhamos o tempo ao nosso lado nessa viagem que é nos conhecer e o mundo!

Rodrigo Pinto / Jornalista

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