Você já pensou no seu legado?

Assisti nessa semana ao filme “No portal da eternidade”, do diretor Julian Schnabel, trazendo o excelente Willem Dafoe interpretando o pintor holandês Vincent Van Gogh na fase final de sua vida. A narrativa tensa e pesada, acompanhada de uma câmera em movimento e diálogos opressores, consegue passar ao expectador um pouco da angústia e da loucura do brilhante artista que morreu em circunstâncias trágicas em 1890, aos 37 anos, pobre e desprestigiado, tendo vendido apenas um quadro dos cerca de 900 que pintou.

O curioso é que a história, de certa maneira, deixa transparecer a convicção e alívio do gênio da pintura com o valor da sua obra, não destinada a seu tempo, mas ao futuro. Van Gogh, nos seus surtos e crises, sabia que produzia a mais bela das artes, universal e arrebatadora. Azar dos seus contemporâneos, inclusive do amigo e também artista Gauguin, que não perceberam que aquele louco, deprimido e maltrapilho exalava talento e sensibilidade e produzia obras que valeriam US$ 100 milhões um século depois.

Saí do cinema pensando no significado da palavra legado. O que deixar para a posteridade, se é que isso tem alguma importância? Há muita gente que não alcança essa percepção, outros não têm tempo para pensar nisso ou estão mais preocupados com o que comer ou como pagar as contas do dia. Alguns enriquecem e já consideram sua fortuna acumulada uma grande conquista, ao menos para os herdeiros. E aqueles com convicção religiosa e crença na vida depois da morte, talvez pela fé, não se importem muito com o que produzem nessa mera passagem terrena.

Outra dúvida: pensar no próprio legado seria uma atitude de vaidade e egocentrismo? Para que se preocupar como irão se lembrar de você ou ainda, se irão mesmo se recordar de você após algumas décadas do seu passamento? Em meio a estas questões, resolvi dar um pouco de visibilidade virtual, já que estou fora do Facebook, Instagram e LinkedIn, a minha singela produção em vídeo, abrindo um canal no Youtube (Guto Junqueira) com documentários e registros relacionados à família e viagens.

Desta maneira, quem sabe, lá na frente, poderei ser lembrado como um cara que subia montanhas e perpetuava a trajetória da família. Vamos e venhamos, pode ser considerado, no máximo, um legadinho … Na verdade, ficar com essa coisa na cabeça não é lá muito produtivo, descamba até mesmo para o devaneio. Melhor delegar tais reflexões aos gênios e artistas, esses sim com alguma responsabilidade sobre sua imagem póstuma.

Há pouco mais de cinco anos estive visitando Arles, uma bela cidade ao sul da França, com ruínas romanas, onde Van Gogh passou parte do seu penúltimo ano de vida pintando desesperadamente. Turistas seguem um roteiro dos locais pintados ou que fizeram parte da vida do artista na cidade e região, inclusive do hospital que o “hospedou”. Você gostaria de ter pessoas daqui a 100 anos seguindo seus passos de hoje? Bom, deixa essa coisa de legado pra lá, “bora” cuidar de algo mais urgente – o que comer essa noite e como pagar a fatura do cartão de crédito amanhã …

Gustavo Junqueira Jr / Jornalista

Van Gogh

 

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