O casamento do filho

Depois de nove anos de relacionamento, o filho e a nora iriam se casar oficialmente. Coisa simples, cerimônia apenas no cartório, seguida de um almoço especial para alguns familiares. Mas mesmo assim, um momento importante e solene, merecedor de uma homenagem, como outras que já fizera antes em ocasiões semelhantes, a parentes ou amigos, endereçando palavras, frases de efeito carregadas de emoção, memória e significados.

Estava um pouco inquieto com esse texto. Como resumir ali, no formato árido de parágrafos, todo o amor paternal que sentia … amor ora distante, ora calado, ora emburrado, ora envergonhado, mas amor. Não havia saída, tão somente escrever aquele sentimento tão expressivo da condição humana.

O amontoado de letrinhas veio, mais uma vez, através de lembranças. De quando o filho nasceu, e ele, o pai, tão jovem e imaturo, o acolheu como podia, e o levava no colo à janela para ver a lua … e juntos, o filho, com sua mãozinha carinhosa, segurando e apertando o dedo do pai, repetiam à exaustão o nome do astro, mas o que se ouvia era apenas um “uá”, uma das primeiras palavras aprendidas e pronunciadas.

O pai, no entanto, tinha fome de mundo, do velho continente. Partiu e deixou o filho com a mãe, por um ano. Quando voltou, o filho, com menos de três anos, o olhou com um misto de curiosidade e desconfiança – seria então aquele ali o seu pai? No reencontro, do colo da mãe, apenas apontou o pescoço do progenitor, de onde despontava um colar bicho-grilo com uma cruz, e vaticinou: “Papai do Céu!”

Se a lua e o céu estavam longe, as montanhas estavam acessíveis. E junto com a mãe, os três subiram e desceram trilhas, rasgaram morros e nadaram em cachoeiras… e que valentia daquele menininho seguro e que se recusava a ser ajudado nas passagens mais perigosas e desafiadoras.

E o filho cresceu, cada vez mais independente, e envolto em seu mundo, tornou-se um adolescente quase fora do alcance dos pais. Amor e conflito são faces da mesma moeda, que não se quebra. Jovem, o filho estudou e entrou na melhor universidade pública, e ao contrário do pai, escolheu os números e as tabelas ao invés das palavras, como meio de vida e sustento. Mas assim como o pai, parecidos que são na foto e algumas vezes na teimosia, encontrou na faculdade a mulher para ser esposa.

Não dessas que se ancoram nos homens e os afundam, mas aquelas que os colocam pra frente, que dão perspectiva de futuro e que, com seu genuíno exemplo de vida e empoderamento, iluminam a trajetória masculina.

Há poucos anos, pai e filho caminhavam juntos numa praia distante, e havia um perigoso e caudaloso rio a atravessar. Motivados por esses desafios tão tolos quanto vigorosos que brotam na alma, recusaram-se a atravessá-lo de barco, como faziam os simples mortais.

Juntos, braçada a braçada, driblando correntes e enganando o cansaço, negociando com as forças da natureza, venceram aquele ardiloso canal que separava a vida da morte, a vontade da acomodação, a coragem do receio. Se foram capazes de realizar aquela estupenda travessia, por que não seriam exitosos também na complicada jornada da vida?

Sim, esta mesma que sempre surpreende com seus ensinamentos enigmáticos. Durante quase duas décadas, o pai ralhou com o filho nas viagens de carro, pois este último dormia a maior parte do tempo e não prestava atenção nos caminhos. “Você nunca vai aprender a se deslocar, não memoriza a rota e jamais saberá chegar por conta própria a algum lugar”, reclamava o pai. Mas sua sabedoria taxativa foi abalada com a chegada da tecnologia, tão incômoda para o pai e tão amigável para o filho.

Hoje, nas viagens, é este último que de forma tão segura, apenas com o uso de um aplicativo com GPS, que indica a direção do futuro. E parece ter aprendido bem: escolheu uma linda nora, cuja família o acolheu como um filho querido e tornou-se um exemplo de lar onde impera o afeto, o respeito e a amizade.

E a nora, por sua vez, transformou-se numa filha que o pai e a mãe não tiveram de ventre, mas de relacionamento. Uma mulher com M maiúsculo, íntegra, carinhosa, responsável, solidária e inteligente, bonita por dentro e por fora. Que belo presente e privilégio de convivência!

E agora, o filho e a nora estão oficialmente juntos para viverem uma fabulosa experiência de amor junto à lua, a papai do céu, às montanhas, à praia, ao rio, à tecnologia e as suas famílias orgulhosas. Vida longa ao casal!

Gustavo Junqueira  / Jornalista

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