Sobre o Marighella de Wagner Moura

Sobre o Marighella de Wagner Moura

No dia 4 de novembro de 1969, por volta das 21 horas, um homem forte de meia idade subia a pé e sozinho a Alameda Casa Branca, nos Jardins, em São Paulo, logo após o cruzamento com a Alameda Lorena.  Pensava exclusivamente em criar condições para ampliar a luta armada e iniciar uma revolução no Brasil para transformar o país numa ditadura de esquerda, algo inspirado em Cuba ou na então União Soviética.

Ele não teve muito tempo mais para pensar em como derrubar o recém-iniciado governo do presidente-general Garrastazu Médici. Entrou inocentemente num Fusca estacionado, o ponto de encontro com frades dominicanos colaboradores da ALN (Ação Libertadora Nacional), organização subversiva que criara no ano anterior para combater a ditadura. Não percebeu que quase 30 policiais de campana, liderados pelo delegado Fleury, do DOPS, o aguardavam sedentos de sangue. Em menos de um minuto morreria cravejado de balas Carlos Marighella, aos 58 anos, baiano, mulato, dirigente comunista e inimigo número 1 do regime militar à época.

Nascia ali o mito do revolucionário destemido, altruísta, preocupado com a justiça e com os pobres, e que de tempos em tempos volta ao nosso radar, agora com o novo filme do ator e diretor estreante Wagner Moura, baiano como seu personagem homenageado. Exibida no Festival de Berlim no mês passado e ainda sem data para estrear no Brasil, a película “Marighella” já polemiza em tempos de embate ideológico, patrulhas digitais e muita intolerância.

Como não estava na capital alemã e nem sou amigo de Moura, não assisti ao filme (vou fazê-lo assim que possível), mas me permito comentá-lo com as informações que já disponho, oriundas da repercussão que teve no festival de Berlim e de entrevistas concedidas, entre outros, pelo próprio Moura e pelo ator e músico Seu Jorge, que faz o papel principal na história. Tenho ainda outras credenciais para me aventurar no tema. Quando Marighella foi morto, eu somava apenas três aninhos, mas aos 17 já me tornara interessado em sua trajetória, principalmente por sua ousadia em enfrentar  ditaduras e sua capacidade de resistência na tortura, e aos 22 anos fiz meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) de Jornalismo na USP focado na Guerrilha do Araguaia, iniciativa do PC do B na primeira metade dos anos 70.

Desde então, li, reli ou até hoje consulto quando necessário livros como “Batismo de sangue”, de Frei Beto; “O que isso, companheiro?”, de Fernando Gabeira; “Brasil Nunca Mais”, da Arquidiocese de São Paulo; “Combate nas trevas”, de Jacob Gorender; “Os carbonários”, de Alfredo Sirkis; “1968 – O ano que não terminou”, de Zuenir Ventura; “Viagem à luta armada”, de Carlos Paz; “Minha vida de terrorista”, de Carlos Knapp; e “Marighella”, de Mario Magalhães, este último livro de vulto sobre a vida do guerrilheiro, lançado em 2012 após nove anos de pesquisa e redação, e que inspirou o filme de Moura.

O cinema e a TV também me trouxeram bastante informação e reflexão sobre o tema, com destaque para filmes como “Pra frente Brasil”, de Roberto Farias; “Batismo de Sangue”, de Helvecio Ratton; “Lamarca”, de Sergio Rezende; e “Cabra-cega”, de Toni Venturi; ou documentários como “Reparação”, de Daniel Moreno; “Hercules 56”, de Sílvio Da-Rin ; “Marighella”, da sobrinha do mesmo, Isa Grinspum Ferraz, e “ Cidadão Boilesen”, de Chaim Litewski; bem como para a minissérie “Anos Rebeldes”, de Gilberto Braga. Além, claro, de muitas entrevistas, matérias e depoimentos ao longo dos anos, inclusive de personagens controversos como Brilhante Ustra, ex-comandante do DOI-CODI, e do Cabo Anselmo, que se tornou delator.

O que podemos esperar então do “Marighella” de Moura? Um filme certamente bajulador e mitificador do revolucionário, de quem Moura não esconde profunda admiração. A primeira opção do diretor para fazer o papel principal, antes de Seu Jorge, era ninguém menos do que o rapper e líder dos Racionais, Mano Brown, que gravara há poucos anos a música “Mil Faces de Um Homem Leal”, com uma letra glorificando a figura de Marighella e a justiça da violência empregada por este, supostamente legítima e em nome dos oprimidos.

Moura se considera um predestinado por lançar o filme no Brasil em tempos obscuros marcados pelo bolsonarismo no poder. Acredita que sua obra de arte tem o papel de conscientizar os pobres e a periferia, de trazer luz à História brasileira recente. Em entrevistas, diz que não existe no campo ideológico contrário ao seu alguém com quem possa debater de verdade. Pelo jeito, só enxerga trevas naqueles que possivelmente criticarão seu filme pela parcialidade com que deve ter roteirizado seu protagonista: um neto de escravos valente, mas um poeta sensível; determinado, mas alegre e brincalhão; revolucionário, mas com princípios para apenas empregar a violência contra as injustiças do capitalismo e a favor de uma sociedade igualitária.

O que não podemos esperar do filme? Ora, que se discuta que Marighella, apesar de ser um homem completamente inserido no seu tempo, abraçou a ideia errada. Que levou centenas de pessoas, a maioria jovens, a entrar e a morrer numa aventura perdida, insuflada por uma ideologia violenta. Marighella tinha lábia e fervor, atraindo rapazolas como Carlos Paz, autor do já citado livro “Viagem à luta armada”, que embarcou cegamente na guerra suja e de justiçamentos (foi ele um dos que fuzilaram friamente o empresário Henning Boilensen em abril de 1971, também no bairro dos Jardins em São Paulo,) e cujo maior mérito é ser o único dirigente da ALN a ter sobrevivido à perseguição implacável do regime militar.

Marighella e a ALN, quando começaram, a partir de 1968, a assaltar bancos, trens, carros-forte e empresas, além de praticar sequestros como o do embaixador americano Charles Elbrick, ajudaram a recrudescer a repressão. A ditadura militar, acuada, criou estruturas hediondas como a Oban e os DOI-CODIs, nas quais a tortura e a política de extermínio e desaparecimentos eram recorrentes. Quem lê o “Minimanual do Guerrilheiro Urbano”, publicação de repercussão internacional escrita por Marighella em 1969, ou ouve seu pronunciamento por uma rádio cubana em 1967, percebe seu grau de belicosidade e a naturalidade com que aborda o uso de armas,  expropriação,  atentados, assassinatos e outras ações similares para implantar uma ferrenha ditadura comunista no Brasil.

Mas Wagner Moura e Mano Brown não dão importância a isso. Com sua soberba de esquerda, convencidos de que detêm o monopólio da virtude e que são representantes ungidos pelas massas e pelos oprimidos para disseminar a verdade através de sua arte engajada, preferem enaltecer o frágil e discutível mito Marighella: o de combatente justo e corajoso que queria apenas o bem dos mais pobres. Mas vou dar um desconto a eles, já que vivemos tempos de intransigência e abundância de haters de direita, que disseminam nas redes ódio, ofensas e ignorância, o que dificulta (mas não inviabiliza) algum diálogo com quem pensa diferente, pois bons argumentos podem e devem surgir de ambos os lados.

Fui no passado admirador convicto de Marighella, chegando mesmo a percorrer a pé  a Alameda Casa Branca fantasiando como nosso guerrilheiro poderia ter escapado da campana do DOPS. Mas com os cabelos brancos e um pouco de sabedoria que a idade costuma trazer, me convenci de que Marighella foi apenas um inconsequente de convicções erradas, que passou a vida fomentando greves e confusões e que morreu violentamente porque pregava a violência.

Moura e Mano Brown não sabem, mas se Marighella tivesse ludibriado o delegado Fleury na Alameda Casa Branca e conseguido liderar e triunfar sua revolução, ele se tornaria mais do que um ícone fabricado pela esquerda. Ele seria, com seu ideário tosco, o nosso verdadeiro Maduro, transformando o Brasil em terra arrasada.

Gustavo Junqueira / Jornalista

Marighella de Wagner Moura

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: