Paul, inspirador e inspiração

Cerca de 45 mil pessoas aguardavam ansiosas na última terça-feira, 26 de março, quando às 20h45 um senhor esguio, simpático, canhoto, de cabelo brancos  e ágil entrou no palco do Allianz Parque, em São Paulo. Durante quase 3 horas e 40 canções, ele e sua banda encantaram e hipnotizaram o público com boa música, clássicos dos Beatles, simpatia e sinergia com os fãs com frases em português. Sir James Paul McCartney , cantor, compositor, multi-instrumentista, empresário, produtor e ativista, uma lenda cada vez mais viva, mostrou novamente a que veio no Brasil.

Sentado numa cadeira no belo estádio do Palmeiras e testemunha ocular daquele grande espetáculo pop, fiquei ali aproveitando e refletindo sobre aquele mito. Confesso que sou ruim de ouvido, não memorizo letras e não me atrevo a cantar nem no chuveiro. Sim, sou fã das Beatles e acompanhei apenas pelas faixas tocadas nas FMs a carreira de McCartney após 1970. O que me fascina, acima de tudo, é o personagem, sua história, como construiu a trajetória e como ela teve algum impacto ou influência na minha realidade, emoções e lembranças. É assim que funciona minha cabecinha racional de jornalista …

Enquanto Paul dava início a mais uma apresentação da turnê “Freshen Up” tocando “A hard days night”, eu o imaginava brincando e crescendo na periferia de uma Liverpool ainda abalada e destruída pelos bombardeios alemães de 1941. Nos anos 50, o menino inteligente conseguiu vaga numa boa escola pública misturando-se a garotos de classes sociais mais abastadas, como Lennon. Juntos, iriam formar a dupla mais talentosa de compositores e intérpretes da história do rock.

O Allianz tremia ao ouvir “All my loving”, e eu pensava numa juventude sedenta por mudanças há quase seis décadas, clamando por novidades e um novo estilo de vida num mundo pós-guerra em plena transformação. Os Beatles capitanearam esse sentimento e explodiram em 1963 na Inglaterra, e depois nos Estados Unidos e no mundo, tendo a genialidade de McCartney um papel fundamental. Depois do sucesso inicial da banda, ele foi um dos principais responsáveis pela atualização e renovação cultural do quarteto na segunda metade dos anos 60.

Ao meu redor no estádio eu via um público diverso, com idade entre 30 e 80 anos, cantando e se emocionando com o velhinho serelepe no palco. Recordei-me de meu avô, um homem tradicional e chefe político de Poços de Caldas, flautista e companheiro de serenata, nos anos 20, de Ary Barroso, autor de Aquarela do Brasil. Ali na virada da década de 60 para 70, Haroldo Junqueira gostava de deitar na sala de sua espaçosa casa com algum disco dos Beatles tocando na vitrola, comprovando que o repertório da banda era universal e desde sempre atingiu a sensibilidade alheia, não importando o número de primaveras do ouvinte.

Paul continuou com sua robusta apresentação mesclando mais faixas dos Beatles, do Wings, sua banda nos anos 70, e composições diversas de sua carreira até seu último disco, “Egypt Station”, lançado em 2018. Minhas memórias trabalharam intensamente durante o show, trazendo recordações como a de sua prisão no Japão em 1980 por porte de maconha; a morte causada pelo câncer de sua primeira mulher, a fotógrafa e depois também musicista Linda McCartney, em 1998; ou ainda suas campanhas ativistas em defesa dos animais.

E de repente lá estava ele, um poderoso maestro, regendo ao final um coro de quatro dezenas de milhares de pessoas, todas elas balançando os braços e cartazes e entoando o mantra “NaNaNa” com “Hey Jude”. Apesar de tantas referências racionais, também me deixei levar pela música, melodia e vigorosa catarse coletiva, experimentando aquilo que podemos chamar de emoção do bem, uma deliciosa vibração positiva que faz simplesmente nos sentirmos felizes.

Paul foi, é e será sempre inspirador. Seu exemplo de vida comprova isso. Por que alguém de 76 anos, um dos artistas mais ricos e bem sucedidos de todos os tempos, precisa estar ali no palco, por duas noites seguidas, “trabalhando”? Ora, porque a energia que emana de multidões em estado de graça não tem preço! Aquilo deve ser revigorante para o artista e trazer muito mais bem-estar e sensações cósmicas do que todos os baseados e LSDs consumidos ao longo da vida. Somos, então, inspiração para McCartney, e essa longeva parceria poderia durar ainda mais alguns anos.

Gustavo Junqueira / Jornalista

McCartney Freshen up

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