O certo, o razoável e o abominável

Outro dia, quando estive almoçando na casa da minha mãe, uma ativa senhora de 85 anos, ela me fez um pedido: você poderia escrever um artigo sobre a situação das nossas praças? Ela tinha bem debaixo do nariz, ou melhor, bem em frente a sua residência no Alto da Boa Vista aqui em Ribeirão Preto, um exemplo escandaloso. Uma linda praça abandonada, suja, com mato tomando conta e piso e bancos deteriorados.

Essa semana, quando lá voltei, a Prefeitura havia roçado o local e dado a ele outro aspecto. Caminhamos então pela praça desfrutando de um bem público com uma aparência razoável, que convida para as coisas boas da vida, como uma conversa tranquila, um passeio descomprometido e um convivência harmoniosa com a  vizinhança. No trajeto, ainda recolhemos alguns poucos plásticos, papéis e restos de comida abandonados ou atirados ao chão, embora a praça estivesse razoavelmente limpa e apenas com galhos e restos de jardim aguardando destinação.

Pensei então que o certo seria termos uma praça sempre limpa e conservada, um esforço conjunto do poder público e da população para cuidar do que é comum e de todos. Usufruir de uma praça bonita, bem cuidada e charmosa faz bem para a saúde, melhora o bom humor, torna a gente mais feliz e o dia mais luminoso, e traz ainda mais empolgação com o bem-estar, com nossa rotina, com as pessoas, com as autoridades, com a própria cidade e com a democracia. Em resumo, é tudo de bom, principalmente se outras áreas sensíveis, como transporte, educação e saúde, estiverem também num patamar razoável.

Razoável? No caso das praças, esta classificação se aplicaria se as mesmas estivessem ao menos sem o mato crescido e minimamente limpas. Sabemos que as Prefeituras estão quebradas, então nosso esforço precisa ser redobrado. Agora, jogar lixo e entulho em praças ou locais públicos, aí é o fim da picada, para não dizer abominável. Como alguém, nos dias de hoje, tem a “coragem” de jogar papel, bituca, plástico e outros restos no chão? Será que não tem vergonha? Consegue achar isso normal ao se olhar no espelho? Qual o senso de responsabilidade e sustentabilidade de um indivíduo desse naipe perante a sociedade?

Nessa semana, assisti na TV a uma matéria mostrando a dificuldade de uma concessionária de estradas para lidar com um verdadeiro depósito de lixo formado às margens de um trevo de acesso a uma comunidade pobre na grande São Paulo. A reportagem mostra uma equipe com 10 funcionários e tratores limpando o entulho durante horas e deixando o local limpo. As câmeras da concessionária ficaram então 24 filmando esse trecho, onde puderam comprovar dezenas de pedestres, motociclistas e motoristas atirando sacolas, garrafas, restos orgânicos e outros resíduos no mesmo lugar, que rapidamente se transforma num lixão outra vez.

Isso não é abominável? Focos de doença, sujeira e, principalmente, de Aedes aegypti e dengue sendo formados na entrada de uma comunidade por responsabilidade das pessoas que ali transitam. Será que não haveria outra possiblidade de destinação do lixo? Não, o mais fácil é dar uma de esperto, acusar o governo e esperar a ajuda de Deus …

Mudando de assunto, mas ainda dentro do território da estupefação, testemunhamos essa semana um embate na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara dos Deputados entre o ministro Paulo Guedes e os deputados de oposição, mais conhecidos como a bancada do Jardim da Infância – pobres crianças, não merecem a comparação … Pois bem, o certo seria uma discussão em alto nível entre Guedes explicando os números e propostas de mudança na Previdência e os congressistas tentando elucidar dúvidas ou propondo algum aprimoramento razoável.

Mas o que vimos foram deputados irresponsáveis e, mais do que isso, covardes e à prova de argumentos e números sensatos, atuando somente para irritar o ministro e aparecer para suas respectivas bases ou currais eleitorais.  Será que não entendem que precisamos com urgência da Reforma, que temos 13 milhões de desempregados no país e que vamos quebrar em pouco anos se nada for feito? Esses vampiros que ganham 33 mil reais por mês oriundos de nossos impostos e se dizem de esquerda, mas cujo campo ideológico está mais para a imoralidade e cafajestagem, não conseguem compreender o mal que estão causando para quem dizem defender?

Enfim, deixando o abominável de lado, voltemos ao razoável e ao certo. Voltarei à casa de minha mãe na próxima semana para mais uma caminhada com ela na praça levando um saco para recolher o lixo alheio. Quero continuar acreditando no ser humano, na realidade de praças limpas e bem conservadas, na aprovação da Reforma da Previdência e no império da sensatez.

Gustavo Junqueira / Jornalista

Lixo

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