Dirigir com responsabilidade, mas sem medo

Leio que o governo quer mudar regras e a fiscalização relacionadas ao trânsito, flexibilizando a punição a motoristas infratores ao ampliar de 20 para 40 pontos o limite para se perder a carta, ou reduzindo o número de lombadas e radares eletrônicos espalhados pelas estradas do Brasil. À primeira vista, essa iniciativa pode parecer equivocada, principalmente num país onde cerca de 40 mil pessoas morrem anualmente em acidentes envolvendo carros, motos, ônibus e caminhões, a maioria por falha humana. Mas também pode ser uma boa oportunidade para rever excessos punitivos ou armadilhas arrecadatórias.

Conheço diversas pessoas que perderam por mais de seis meses suas licenças para dirigir. Conversando com elas, descubro que na maioria das vezes a causa foi um acúmulo de multas por excesso de velocidade, sendo que essa sempre ficava em até 20 km/h acima do limite estabelecido. Ou haviam bebido um pouco e tiveram a infelicidade de serem paradas numa blitz com bafômetro. Pois bem, ninguém havia feito nada grave e de repente estava envolvido em processos com advogados, despachantes, cursos e despesas indigestas. Uma enorme energia desperdiçada com algo improdutivo em meio a tantos outros problemas que enfrentamos em nosso cotidiano.

Não quero aqui escrever em defesa da impunidade, da inconsequência e da irresponsabilidade no trânsito, mesmo porque já perdi um ente muito querido num desastre automobilístico.  Mas sim em nome do bom senso. Dirigir hoje em algumas estradas e cidades significa fugir de arapucas, radares escondidos, limites de velocidade que variam a todo momento e que, em alguns lugares, são estranhamente baixos. Conduzimos sob grande pressão para não sermos multados pois em um segundo de descuido, a legislação consegue encontrar uma brecha para arrecadar alguns trocados em cima de você.

Outro dia, saindo ao meio dia ensolarado de um posto da Rodovia dos Bandeirantes, a mais segura do país, demorei cinco minutos para me lembrar de acender os faróis do carro. Tarde demais! Algum radar detectou a “falha” e em duas semanas fui agraciado com aquela correspondência do Detran que ninguém gosta de receber em casa. Na verdade, estamos perdendo o prazer de dirigir pois a sensação que temos é a de que estamos constantemente fazendo algo errado e sendo vigiados e punidos.

Em países desenvolvidos pelos quais viajei ou conduzi veículos, a impressão que tive foi que o rigor é menor e o resultado, melhor. Existe uma tolerância maior e mais razoabilidade para punir. O que parece mais justo ao leitor? Multar e prender quem trafega a 140 km/h numa cidade ou punir 10 motoristas que passaram a 70 km/h num ponto onde o limite era 60 km/h e havia um radar escondido? Encarcerar quem bebeu meia garrafa de pinga e está dirigindo como um louco ou penalizar 10 pais de família que tomaram três chopinhos num happy hour, estão dirigindo devagar e com cuidado, mas são parados numa blitz com bafômetro no caminho de casa?

Posso afirmar que conheço muita gente que, mesmo tendo tomado os três chopinhos, dirige de forma mais segura do que outras dezenas de motoristas que não ingeriram uma gota de álcool e cometem diversas irregularidades no trânsito. Então onde está a justiça em punir severamente quem não está atrapalhando ninguém? Se os reflexos são diminuídos quando bebemos, também posso dizer que a capacidade de dirigir também é afetada quando estamos estressados, nervosos e atrasados, ou seja, a maioria esmagadora dos motoristas conduz de forma afetada.

Dito isso, não quero propor a liberdade incondicional para sair acelerando bêbado por aí. Pelo contrário, gostaria de uma discussão mais sensata que revisse os limites de velocidade em alguns trechos, mas também os de punição buscando alguma tolerância em situações pontuais. Mais campanhas educativas e lombadas físicas para fazer o motorista andar devagar onde é preciso, e menos radares móveis camuflados e operações para parar e fiscalizar quem está dirigindo corretamente – o alvo tem que ser quem conduz de maneira perigosa, mal educada e que realmente coloca em risco a vida das pessoas ao redor.

Sabemos que no futuro veículos sem motoristas serão realidade. Até lá, no entanto, precisamos voltar a dirigir com prazer e sem medo, com responsabilidade e sem culpa.

Gustavo Junqueira / Jornalista

Dirigir com prazer

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