Domingo de Páscoa

Desde que evoluiu no caminho da razão e se distanciou de seus antepassados que viviam nas árvores, o ser humano vem buscando no simbólico e no intangível respostas para suas dúvidas e angústias, principalmente o medo e a não aceitação da morte. Estavam ali inauguradas a fé, ou a adesão de forma incondicional a uma hipótese considerada verdadeira sem qualquer tipo de prova ou critério objetivo de verificação, e a religião, ou crença na existência de um poder ou princípio superior e sobrenatural que determina nosso destino e ao qual devemos respeito e obediência.

Passaram-se milênios com a fé e centenas de religiões ganhando diferentes dimensões e interpretações nos mais diferentes rincões do planeta. Até que há cerca de dois mil um homem na Palestina, revoltado com a ocupação romana que profanava sua terra natal de acordo com sua crença, liderou uma pequena revolta à frente de alguns abnegados. E, como outros revoltosos do seu tempo, acabou crucificado. Acontece que suas palavras e ações tinham algo de mais profundo, revolucionário e contagiante, conquistando pra valer corações e mentes de alguns seguidores.

Um deles, que nem chegou a conhecê-lo em vida, teve uma iluminação, se converteu, fez sua interpretação e lançou as bases de uma nova religião. Teria sido mais uma entre tantas outras que se perderam ao longo da História, mas essa, mesmo sendo duramente reprimida, prosperou e ganhou novos adeptos se espalhando pelo Império Romano. A tal ponto que, três séculos depois, os imperadores não só liberaram a prática da nova religião com Constantino como a adotaram oficialmente com Teodósio. A igreja se firmava como instituição poderosa, organizada e sólida para durar milênios e aumentar cada ver mais seu rebanho.

Com o passar do tempo, novos pensadores lapidaram o conjunto de crenças e entendimentos a respeito daquele homem crucificado que acreditavam ser o filho de Deus. Agostinho, ainda no século IV, e Tomas de Aquino, no século XIII, filosofaram e ajudaram a entender o incompreensível e a dar respostas que a sociedade exigia naqueles idos. Mas a igreja entrou em decadência, aprofundou a corrupção com as indulgências na busca da manutenção do poder e acabou gerando uma cisão com Lutero e o protestantismo no século XVI. Neste embate, até o fogo e a tortura da Inquisição foram usados para combater a chamada heresia e a contestação dos dogmas.

Alguns acharam que, com o advento do Iluminismo 200 anos depois, a razão e a ciência aos poucos feririam de morte as crendices, as superstições e as religiões. Ledo engano. Mesmo com as inúmeras descobertas científicas e a explicação de diversos fenômenos antes atribuídos ao divino, as pessoas não abriram mão de sua espiritualidade, de acreditar em Deus e na vida depois da morte. Os horrores das guerras do século XX apenas comprovaram que o homem, capaz de desenvolver a teoria da relatividade e de viajar até a lua, mal podia lidar consigo mesmo, quanto mais decretar o fim das religiões, a morte de Deus e a insensatez da fé.

Hoje vivemos numa aldeia global conectada e desigual, permeada por valores rasos como consumo desenfreado e acumulação de riquezas. Navegamos afogados num maremoto de informações infinitas e de novas tecnologias, vamos aos poucos erodindo os recursos do planeta e continuamos tão humanos, egoístas e amedrontados como sempre fomos. Permanecemos seres humanos curiosos que simplesmente não aceitam morrer e querem entender de onde viemos e para onde vamos. Ainda sabemos tão pouco, mas o que sentimos no peito e na alma é grandioso e não se explica e nem se quantifica.

Há dois mil anos um homem morreu na cruz e muita gente continua acreditando que ele ressuscitou e era filho de Deus. Algo como dois bilhões de fiéis se dizem atualmente cristãos, sendo pouco mais da metade os chamados católicos. Para eles, estamos em plena Semana da Páscoa, festividade que celebra a ressurreição e simboliza também a vida, a renovação e a esperança. São valores construtivos, positivos e necessários para nossa convivência mais harmoniosa, e é salutar e algo divino que tantas pessoas se confraternizem nessa data com os ânimos tomados por estas boas intenções.

Creio ser tão difícil provar a existência de Deus ou de um ente superior quanto sua inexistência. Quem sabe no futuro distante … Até lá podemos continuar de olhos abertos e corações atentos a cada pequeno milagre ou mistério da vida que inunda nossa existência e eleva o espírito, mesmo quando o ceticismo nos iludir com sua peculiar cegueira e jocosa insensibilidade. Um bom domingo de Páscoa a todos!

Gustavo Junqueira | Jornalista

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