Humboldt, um ídolo que morreu há 160 anos

Nesse próximo dia 6 de maio completará 160 anos da morte do alemão Alexander von Humboldt, nascido há 250 anos e certamente um dos homens mais impressionantes de todos os tempos embora um pouco esquecido nos dias atuais. Cientista, viajante, aventureiro, escritor e curioso, entre tantos outros predicados, Humboldt era, depois de Napoleão, a pessoa mais famosa da Europa no início do século XIX e deixou para as gerações seguintes um importante legado de conhecimento e de visão abrangente do funcionamento integrado da natureza, um tema ainda bastante oportuno em nossos esforços para a preservação do planeta.

A fama ainda jovem – ele nasceu em 1769 – veio após uma espetacular viagem exploratória que realizou pelas Américas de 1799 a 1804, na qual investigou tudo o que via e mediu, com os instrumentos que possuía, a temperatura, altitude, dimensões e características dos mais variados elementos, lugares e seres vivos – mares, rios, montanhas, plantas, ventos, correntes e por aí vai. Era ciência pura na veia! Moldado pelo Iluminismo e por uma necessidade de conhecer e explicar o mundo a sua volta, Humboldt foi mais longe e mais alto do que qualquer um antes.

Minha admiração por ele começou por suas façanhas no montanhismo. No Equador, de forma ousada e perigosa, tentou escalar em 1802 o Chimborazo, ponto culminante do país, com 6.270 metros de altitude, e cujo cume é o ponto mais distante do centro da Terra. Humboldt, por pouco mais de 300 metros, não alcançou o topo – seus equipamentos e roupas eram precários, e as informações sobre rotas inexistentes, mas o feito ajudou a lhe dar notoriedade e respeito mundo afora.

Além do vigor, habilidade e coragem, dominava matérias de diferentes áreas, tais como mineralogia, botânica e zoologia, e tinha o dom de impactar pessoas. “Diga-me com quem andas que te direi quem és” …. Bem, Humboldt conheceu e se relacionou com o escritor e cientista prussiano Johann Wolfgang von Goethe, a quem influenciou a importante obra. E também Thomas Jefferson, terceiro presidente dos Estados Unidos e principal autor da declaração de independência daquele país.

Quer mais? Simon Bolívar, o grande libertador da América espanhola, esteve com Humboldt em Paris e se inspirou nele para levar adiante seu projeto de independência. E ainda Charles Darwin, que revolucionou o mundo com sua teoria da evolução. Sem o exemplo de Humboldt, o naturalista inglês provavelmente não teria embarcado no Beagle para sua volta ao mundo, jornada que lhe proporcionou o conhecimento e a convicção para escrever “A origem das espécies”.

Com todo esse prestígio, Humboldt tornou-se uma figura superlativa do século XIX. No centenário de seu nascimento, grandes manifestações e homenagens reuniram milhares de pessoas em diversos países da Europa e nos Estados Unidos. Talvez ninguém tenha emprestado o próprio nome para batizar tantas coisas e lugares como o cientista alemão, de cidades a instituições de ensino, de praças a ruas, de correntes marítimas a crateras lunares.

Para as gerações de hoje, ele pode parecer apenas mais um personagem do passado, como tantos outros que fizeram descobertas incríveis ou trouxeram inovações que permitiram à humanidade dar mais um passo rumo ao chamado progresso. Mas Humboldt continua atual e deveria ser mais estudado. Suas concepções relacionadas à natureza e à ecologia, e de como a humanidade se integra a elas, permanecem válidas e nos ajudam a enfrentar a difícil missão de preservar os recursos naturais, combater o aquecimento global e manter o planeta habitável para nossos netos.

Em minha humilde condição de admirador nato de Humboldt, ainda desejo trilhar uma vez mais seus passos na altitude. Em 2008, em viagem pelo Equador, tentei escalar o Chimborazo e fui forçado a abandonar a investida por riscos de avalanche. Quem sabe no futuro próximo, após ter estudado um pouco mais sua biografia, eu me permita uma nova tentativa de chegar ao cume dessa emblemática montanha, agora devidamente inspirado pelo autor da monumental obra “Kosmos”, publicada em cinco volumes. Mas para o leitor mais interessado, recomendo “A invenção da natureza”, de Andrea Wulf, uma bela biografia de Humboldt indicada por um grande amigo que escalou o Chimborazo em fevereiro deste ano.

Gustavo Junqueira / Jornalista

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Um comentário em “Humboldt, um ídolo que morreu há 160 anos

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  1. Fantástico. Personalidades como ele precisam ser mais conhecidos pelos estudantes, profissionais de várias áreas, leigos, como nós, para valorizarmos a curiosidade e a pesquisa. Eu, particularmente, já o conhecia e fiquei tentada a ler o livro. Gratidão pela indicação e pelo texto.

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