Entre a cruz e a espada

Há cerca de duas semanas o deputado federal Paulinho da Força, ou da Farsa, como apelidaram por aí, declarou que o Congresso deve aprovar uma Reforma da Previdência desidratada, ou seja, que só dê um alento para a economia não naufragar. Assim, Bolsonaro não colheria ou louros de um período de crescimento e, impopular, não se reelegeria em 2022. A sinceridade desavergonhada do parlamentar, colocando interesses próprios ou partidários acima do bem do Brasil, tem um aspecto que merece ser analisado, o famoso “dos males, o menor”.

Raciocinem comigo: via de regra, queremos um Brasil melhor, no qual cada um tenha mais oportunidades, um país com menos desigualdades, mais justiça, com instituições fortes e uma economia fortalecida e pujante. E sabemos que a maioria que votou em Bolsonaro o fez não exatamente por convicção, mas para tirar o PT e a esquerda do poder. Eleitores que acreditavam que nosso presidente, passadas as eleições, deixaria de lado o comportamento mais extremado e, respeitando um pouco a liturgia do cargo, governaria mais ao centro aproveitando a chance histórica de resgatar a economia paralisada e iniciar um novo ciclo virtuoso de nossa combatente democracia.

Ledo engano! As sucessivas crises criadas pelo próprio governo, as disputas acirradas entre as alas militar e ideológica, as declarações desastrosas de Bolsonaro nas redes sociais, as caneladas do chanceler Ernesto Araújo, as derrapadas do ministro Ricardo Salles no Meio Ambiente, as opiniões atrasadas e preconceituosas da ministra Damares, a balbúrdia no Ministério da Educação, a falta de articulação com o Congresso, os comentários odiosos de Olavo de Carvalho na internet e o agora PIB quase estagnado demonstram que o caminho é bem mais árduo do que imaginávamos. De concreto nesse governo, por ora, somente a proposta da Reforma da Previdência e sua cada vez mais vaga promessa de que, se aprovada, os investimentos retornarão e com eles a oxigenação econômica e as tão sonhadas vagas de trabalho para mais de 13 milhões de brasileiros desempregados.

Aí ficamos entre a cruz e a espada. Torcer para a aprovação de uma robusta reforma previdenciária significa melhorar o Brasil mas, ao mesmo tempo, empoderar Bolsonaro. Estaremos assim batendo continência para seu governo de ações e pretensões estapafúrdias, tais como o alinhamento cego com Trump e Israel, o desmantelamento das salvaguardas e políticas de proteção ambiental, o amadorismo e insensibilidade nas questões de Educação, a flexibilização forçada e glorificação do uso de armas, o permanente clima de confronto e acusações, e até a possibilidade de discutirmos o desenvolvimento de artefatos nucleares para a segurança nacional.

Ou, por outro lado, desejar o esfacelamento e desidratação da Reforma da Previdência, isto é, ansiar por um mal evidente para o Brasil e a solvência das contas públicas, acarretaria o enfraquecimento de Bolsonaro. Com a crise agravada, a tendência seria uma novela penosa e imprevisível de derretimento do governo do ex-capitão, sendo que um processo de impeachment, ao qual o povo brasileiro já vem se acostumando nas ultimas décadas (inclusive com a posse de vices que não fizeram feio), se tornaria uma possível saída. E, pasmem, chegamos a um ponto em que um general como Mourão, na qualidade de vice, transformou-se numa alternativa mais harmoniosa, equilibrada e desejável aos olhos de muitos segmentos da sociedade para assumir o comando do Planalto.

As numerosas manifestações contra o contingenciamento de verbas para a Educação na semana passada, obviamente que coordenadas também por lideranças e militantes de esquerda e turbinadas por idiotas úteis, deram um sinal claro que as ruas podem sim influenciar o cenário e determinar caminhos inesperados. Com o recente banho de água fria no PIB e na confiança de empresários, há uma avenida de oportunidades para petistas, psolistas, lulistas, sindicalistas, estudantes e a turma do contra e sem qualquer apego ao controle dos gastos públicos começarem a se mobilizar aqui e acolá. As denúncias e evidências a respeito de possíveis falcatruas do senador Flavio Bolsonaro enquanto era deputado estadual estão ganhando corpo e certamente atingirão o pai presidente, dando mais combustível aos nascentes protestos.

E você, leitor? Em que acredita? Ou para o que torce? Para que Bolsonaro dê a volta por cima, acerte os pontos com o Congresso, aprove a nova Previdência, destrave a economia e inaugure um novo ciclo de crescimento, mas trazendo a reboque aquela agenda indigesta da extrema direita? Ou para que Bolsonaro não consiga passar nada relevante no Parlamento, desidrate de vez ele mesmo até alcançar os níveis de popularidade de Temer, afunde o Brasil de volta à inflação e seja “impichado”, ou se arraste até 2022 como um cadáver político, incapaz de eleger os próprios filhos síndicos de condomínios na Barra?

Qualquer que seja, leitor, seu desejo ou torcida, lembre-se que está em jogo o Brasil e o futuro de seus mais de 200 milhões de habitantes. Talvez encontremos entre as duas possibilidades expostas uma terceira via, na qual desenvolvimento sustentável e contas públicas organizadas, consenso e bom senso, e reformas e participação da sociedade redundem em ingredientes complementares e não excludentes de uma mesma panela de pressão.

Gustavo Junqueira / Jornalista

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