Lembranças do passado para adivinhar o futuro

Tido como um povo que não valoriza sua memória e cultura, o brasileiro está sempre se surpreendendo com o presente e perdido em relação a seu futuro. Pois bem, vamos então revisitar o passado e relembrar como chegamos até aqui para termos mais possibilidades de antecipar o que nos reserva o calendário lá na frente. Voltemos, por exemplo, à década de 50, quando meus pais viviam suas juventudes e o Brasil ainda experimentava seu complexo de vira-lata descrito por Nelson Rodrigues, na sequência da derrota para o Uruguai, no Maracanã, na final da Copa.

Naquele tempo, ao som de bota o retrato do velho outra vez, o ex-ditador Getúlio Vargas (51-54) voltou à presidência pelas urnas e, em seu mandato, criou uma empresa chamada Petrobras. Denúncias de corrupção e envolvimento na tentativa de assassinato de Carlos Lacerda culminaram no suicídio do gaúcho. A crise não arrefeceu, já que em pouco mais de um ano tivemos uma sequência de três novos presidentes e diferentes tentativas de tomar o poder: Café Filho (54-55), Carlos Luz (apenas dois dias no comando do país) e Nereu Ramos (mandatário por quase três meses).

Com a eleição de JK (56-60), o Brasil ganhou novas perspectivas: levou a Copa de 58, se endividou e construiu a ilha da fantasia de Brasília. Aí, numa guinada à direita, elegeu um conservador que prometia varrer a corrupção, Jânio Quadros (61). O maluco renunciou sete meses depois criando uma baita confusão. Um arremedo de parlamentarismo foi sacado da manga para impedir que o vice, o populista Jango (61-64), assumisse com todas suas prerrogativas. Isso só aconteceu em 63, mas o ambiente de Guerra Fria impulsionou o que os tenentistas almejavam desde a década de 20: a tomada do poder pelos positivistas de farda.

Veio o golpe (ou seria revolução) de 64 e com ele os 20 anos de ditadura militar. Primeiro com Castelo Branco (64-67), ainda com frágeis intenções de retorno à institucionalidade democrática, e depois com Costa e Silva (67-69), que enfiou goela abaixo da sociedade o AI-5 em 68. Com a trombose inesperada, foi substituído por uma junta militar, os três patetas, até que os milicos dessem posse ao general Médici (69-74). Tempos de chumbo, de tortura e de milagre econômico, o PIB brasileiro crescendo em dois dígitos. Aí veio o general da distensão lenta, gradual e segura, o Geisel (75 a 79), mas também do declínio econômico e das ideias protecionistas.

Em seus estertores, o regime militar apresentou ainda um general que gostava mais do cheiro de cavalo do que do odor do povo, João Figueiredo (79-84). Tivemos a anistia, mas a inflação começou a perder o controle no início da década perdida. As Diretas-já não passaram, mas um arranjo coordenado por Ulysses Guimarães e Tancredo Neves prosperou permitindo uma transição de governo para os civis sem traumas. Ironia do destino, a raposa mineira adoeceu na posse e morreu no feriado de Tiradentes, nos sobrando um vice indigesto que governaria por cinco anos: José Sarney (85-89).

O maranhense presidiu o Brasil na era da hiperinflação e dos planos mirabolantes, mas o mais ousado nesse quesito foi seu sucessor, Collor (90-92), o primeiro mandatário eleito pelo voto popular desde Jânio, em 60. O caçador de marajás sequestrou a poupança, aprofundou a recessão e, tragado pela corrupção operacionalizada pelo seu assecla PC Farias, acabou renunciando na véspera do seu impeachment. O vice, Itamar Franco (92-94), assumiu querendo fabricar novamente o ultrapassado Fusca, mas produziu uma bela nomeação para o Ministério da Fazenda: Fernando Henrique Cardoso. Lá ele conseguiu liderar um plano que finalmente funcionou, o Real, estancando a inflação.

Com a moral alta, FHC (95-2002) elegeu-se presidente, aprovou daquele jeito conhecido o instituto da reeleição, reelegeu-se, enfrentou diversas crises mundiais (México, Tigres Asiáticos e Rússia), desvalorizou o Real e, num final de governo meio melancólico, preparou as condições para que o PT chegasse ao poder. Depois de três derrotas na corrida presidencial, Lula (2003-2010) vestiu a faixa verde-amarela por dois mandatos, sendo o primeiro deles marcado por crescimento econômico e responsabilidade fiscal, além do Mensalão, e o segundo pela crise de 2008 no mundo.

Consolidou seu mito populista a ponto de eleger um poste para sucedê-lo, Dilma Rousseff (2011-2016), uma voluntarista que fez tudo de errado na economia e mesmo assim conseguiu se reeleger, mas o aprofundamento das investigações do Petrolão e a recessão levaram-na a ser a segunda “impichada”, já em tempos de Lava-Jato, a melhor coisa que o Brasil desovou na última década. À beira do caos, o comando do país foi parar nas mãos de um cacique do velho e adesista PMDB, o vice Michel Temer (2016-2018), que surpreendentemente conseguiu aprovar algumas reformas e nos conduzir até 2019, embora hoje viva em estado de apreensão sendo preso e solto acusado como chefe de quadrilha.

Bolsonaro está aí há quase cinco meses e o futuro de seu governo fica cada dia mais nebuloso. Para não fugir do figurino de seus antecessores, depois de quase assassinado com uma facada, ele promete causar. As apostas estão abertas …  Vender a Petrobras? Fechar Brasília e sua velha política? Varrer a corrupção? Dar um golpe? Renunciar? Cometer suicídio? Invadir a Venezuela? Sofrer um impeachment? Importar Cancún para Angra dos Reis? Fazer da Reforma da Previdência o seu Plano Real resgatando sua popularidade e se reelegendo? Ou o Centrão irá implantar um novo parlamentarismo de conchavo? A julgar pelos últimos 70 anos de nossa História, podemos esperar de tudo nessa marcha da insensatez, menos monotonia ou um curso dos acontecimentos sem solavancos.

Gustavo Junqueira / Jornalista

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