Experiência e inspiração aos 50

Tenho cá comigo que ao superar a marca dos 50 anos (estou nos 52), vivenciamos um momento importante de ressignificação de nossas existências. Nessa idade, dispomos, em geral, de considerável bagagem profissional e emocional, alguns trocados poupados e ainda respeitável vigor físico, mas sabemos que a maior parte da vida já se foi. Se quisermos mudar o estilo, promover algo inovador ou buscar um propósito compatível com as novas exigências da alma, a hora é agora e possivelmente poderá estar relacionada a duas palavras básicas: experiência e inspiração.

Em meio a essas reflexões, participei na última semana de um talk show, em inglês, comandado pelo dinâmico professor Amaury Alves e cujo tema era minha viagem à Antártica, de veleiro, em janeiro. Na plateia, pessoas aparentemente curiosas ouvindo o relato, aproveitando a oportunidade de aprimorar o aprendizado de uma língua estrangeira e participando de um bate-papo descontraído, ilustrado por fotos e vídeos da jornada ao continente gelado. Mas o que será que de fato buscavam ou as motivava a estar ali?

O incrível navegador Amyr Klink, em uma recente palestra que pude acompanhar, e também em seus livros, pontua que o que importa mesmo e o que levamos dessa vida são as experiências. Não necessariamente viagens, mas a efetivação de uma iniciativa que vá além da comodidade, da preguiça e do medo para atingir a opulência e didatismo da prática, degustando na arena dos acontecimentos a sensação e a assimilação do “fazer” e do “sentir”. O que poderia ser mais rico e recompensador do que sonhar, planejar aquilo que nos motiva e nos dá vontade de viver, batalhar por isso e realizar essa almejada experiência?

Durante o talk show, alguns se surpreenderam com detalhes de minha expedição antártica, como a limitação de apenas poder tomar três banhos durante 20 dias, o desconforto da navegação em mares tempestuosos e os perigos inerentes a uma viagem como essa, além do risco de se ter, por exemplo, um repentino problema de saúde, como uma apendicite, num local de tamanho isolamento. Expliquei que tudo isso fazia parte do pacote para usufruir, de forma mais autêntica e pulsante, da magia de um local extremo, envolvente e essencial. Uma experiência única, que sempre nos leva para processos de depuração e autoconhecimento.

E para vivê-la, um ingrediente especial age como combustível aditivado impulsionando nosso foco e entusiasmo: a inspiração. No talk show, mostrei um slide personificando essa palavra nos rostos de Cook, Scott, Schackleton, Bellingshausen, de Gerlache, Charcot e Amundsen, todos eles, entre britânicos, russo, belga, francês ou norueguês, grandes navegadores, aventureiros e desbravadores polares no seu tempo. Cada um com uma história marcante de superação, determinação, conquistas e mesmo erros que, ao final, levaram à conquista do polo sul por Roald Amundsen, feito logrado há 108 anos e que hoje equivaleria ao mérito de se tornar o primeiro homem a pisar em Marte.

Nos últimos 20 anos, li e conheci um pouco mais a respeito da trajetória desses inspiradores e, aos poucos, fui construindo o desejo de conhecer a Antártica e, se possível, com um gostinho de aventura, até quer a oportunidade apareceu e não deixei escapar. Em alguns momentos da viagem, me emocionei por estar exatamente onde alguns desses exploradores passaram, e aquela sensação de experimentar um pouco do que eles viram e sentiram no passado foi magistralmente grandioso, justificando qualquer infortúnio ou risco que enfrentei na jornada.

E o melhor é perceber que, além de nos renovarmos e alimentarmos o espírito com o exemplo de vida alheio, também somos capazes de inspirar, de gerar num amigo ou num desconhecido o desejo de, ele próprio, construir e promover sua experiência. Há 10 anos fui para o Atacama e lá escalei o Lascar, um vulcão ativo e imponente, jornada que sintetizei num documentário em vídeo. Pois não é que o professor Amaury assistiu ao material, viu algum sentido naquela empreitada e se mandou para o Chile subir a mesma montanha para lá abraçar sua vivência? Muito bom influenciar e ter o prazer de despertar uma centelha que aguardava um leve sopro…

E assim, nessa fase cinquentão, vamos tentando decifrar mais um pouco as possibilidades existenciais e direcionando o tempo, cada vez mais precioso, para aquilo e para as pessoas que realmente valem a pena. Não é muito fácil encontrar o tal propósito e driblar as recaídas, armadilhas e tentações, mesmo com a clarividência e sabedoria de cinco décadas no costado. As respostas sempre serão inúmeras e evasivas, mas ao menos as perguntas estão sendo lapidadas. A meta é ainda ser capaz de, se necessário, mudar o rumo. Experiências e inspirações, certamente, não faltarão.

Gustavo Junqueira / Jornalista

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