Em defesa da Lava Jato

“Quem com ferro fere, com ferro será ferido”. O ditado se aplica bem ao que ocorreu na última semana ao ministro Sergio Moro, grampeado e exposto publicamente com trocas de mensagens privadas com o procurador-chefe da Lava Jato Deltan Dallagnol. De certa forma, a maior operação anticorrupção da História brasileira vinha agindo de forma bastante contundente e, dentro de um regime democrático pleno, certo limite sempre é salutar antes que algum poder ou força ultrapasse as regras do bom senso em sua maneira de atuar.

Mas apenas nesse sentido, o de discutir excessos da Lava Jato, que enxergo algo positivo nesse crime de roubo e vazamento das mensagens do celular de Sergio Moro. Urge defender a Lava Jato e seus robustos resultados alcançados até hoje: 60 fases, mais de 240 condenações de uma centena de corruptos com penas que acumulam mais de 2.200 anos de prisão e bilhões de reais recuperados da rapinagem. Tudo o que o jornalista-militante Glenn Greenwald, do site The Intercept, quer ofuscar para tentar vitimizar e absolver o populista de Garanhuns de uma condenação já confirmada em 2ª instância e de outras prováveis em andamento.

Acompanhar a cobertura do caso pelos sites e blogs de esquerda é espantoso. Difícil  acreditar que possam sentir e interpretar a realidade de maneira tão enviesada, descompensada e moralmente condenável. Surpreende-me que nenhum deles reconhece sequer um mérito no trabalho de Moro e da Lava Jato ao longo de cinco anos de atuação. Nunca antes na história desse país, como dizia certo demiurgo, se prendeu tantos empresários, executivos, doleiros, operadores, ex-deputados e espertalhões, os mesmos que antes escapavam de qualquer falcatrua através de caros advogados que sempre encontravam um coração generoso e garantista de um Gilmar Mendes a proporcionar-lhes a liberdade.

O problema foi que a Lava Jato resolveu ir atrás dos políticos que protegiam a bandalheira e se beneficiavam dela. E quem estava lá? Diversos partidos, como PMDB, PP e PSDB, e no topo deles, o PT, que ocupou por quatro mandatos a presidência da Nação. A briga de Moro contra o Partido dos Trabalhadores não é por causa da cor vermelha da agremiação, mas porque esta comandava sim o show de horrores da corrupção. Ou o leitor acha que Palocci, Dirceu, Delubio e Vaccari, já condenados com fartas provas e evidências, agiam sozinhos e sem o conhecimento do chefe que continua a jurar inocência lá de sua cela em Curitiba com uma cara de pau sem precedentes?

As conversas roubadas e vazadas de Moro causam sim constrangimento. Mas gostaria de saber quem não ficaria enrubescido se tivesse o conteúdo do seu aplicativo bisbilhotado pela opinião pública. Quem atua na área jurídica sabe que advogados e promotores conversam com juízes. No caso de Moro e Dallagnol, o tom mostra sim proximidade, mas não promiscuidade, como a lista de apelidos da planilha do Departamento de Operações Estruturadas da Odebrecht. Diversas ações e pedidos de condenação da força-tarefa foram contrariados por decisões de Moro. Mas a maioria dos julgamentos e sentenças do magistrado foi confirmada em instâncias superiores, mostrando, via de regra, correção, substância e concordância com o ordenamento jurídico.

O PT e seus adoradores promovem há anos uma campanha de acusação e difamação de Moro e da força-tarefa. Chamados de inimigos, obviamente que os procuradores não nutririam muita afeição pelo comandante petista e seus seguidores. E evidentemente que os integrantes da Lava Jato torciam contra o retorno do PT ao poder através da eleição de Lula ou Haddad em 2018, e é natural que isso ficasse claro numa conversa privada entre eles. Mas isso retira a isenção para investigar e julgar delitos? Sendo assim, se eu cometesse um crime e fosse a julgamento, contrataria o Zanin e alegaria que o juiz, caso me condenasse, não ia com minha cara e, portanto, não teria condições nem moral para me colocar atrás das grades.

Considero Moro um valente que se transformou em referência nacional por seu talento, coragem e seriedade. Construiu uma carreira por mérito próprio, estudando e se especializando. Atuou à época do caso Banestado e entendeu a dinâmica dos crimes financeiros. Por isso, foi chamado pela ministra Rosa Weber para auxiliá-la no STF na apuração das entranhas do Mensalão. Depois, inspirado pela Operação Mãos Limpas,  indignado com a corrupção desavergonhada que assolava a República e conhecedor do funcionamento desse perverso mecanismo, foi o juiz que botou a cara a bater e enfrentou os mais poderosos do país julgando e condenando de acordo com as provas levantadas e apresentadas pela Lava Jato.

Mas o juiz de vida pacata de Curitiba já não era mais dono do seu destino. Mexeu com interesses colossais, e a briga passou também a ser mais política do que nunca. Para a Lava Jato não ser engolida, restou-lhe sim continuar a disputa em outro ringue, mas antes do surgimento de uma vaga no STF, vem pagando pedágio como ministro da Justiça de um governo e de um presidente que não são, digamos, os seus preferidos. Agora lhe deram uma rasteira e, no Congresso, o poderoso e fétido Centrão, com o apoio do sinistro PT, querem vê-lo sangrando para enfraquecer ou minar qualquer mudança que iniba crimes ou puna de verdade os abutres da República.

E assim seguimos com o mais importante acontecimento histórico desse século no Brasil, a Lava Jato, em xeque. Enquanto isso, gente alheia ao mais básico cálculo matemático e desonestos intelectuais protestam contra a ideia da Reforma da Previdência ou tentam sabotá-la retirando Estados e municípios do projeto. Por que será que não tentam revogar a Lei da Gravidade, que também fere o direito dos trabalhadores? Se estamos economicamente estagnados com Moro e a Lava Jato ainda no tabuleiro, sem eles acreditaremos em quem e em qual futuro…

Gustavo Junqueira / Jornalista

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