Sobre homens e cachorros

Certa vez alguém me disse que preferia lidar mais com cachorros e menos com gente. Os cães, justificava, seriam mais confiáveis e davam menos trabalho. Não é à toa que atualmente a população desses animais de estimação seja tão numerosa e presente em tantos lares e quintais fomentando a economia pet. Não fugindo à regra, tenho em casa a Sandy, meio vira-lata, meio pastor australiano, uma simpática cadela que me venera e com quem me relaciono de modo bastante peculiar.

Sim, é possível conversar com os cachorros. Meu diálogo com a Sandy é diário e versa sobre diferentes assuntos: alimentação, passeios, limpeza, esportes, jardinagem, jornalismo e até política. Ela ouve, presta atenção, finge entender e abana o rabo. Quando imito latidos, miados ou sons de outros animais, ela vira a cabeça com uma expressão do tipo “esse meu dono não bate bem das ideias”. E assim interajo com ela nos finais de tarde, quando consigo esquecer um pouco os problemas do dia e perceber que a vida é muito mais divertida e diversa do que as preocupações terrenas.

A Sandy prega lá suas peças. Nessa semana que passou, enquanto o encanador consertava um vazamento em casa, ela sorrateiramente pegou com a boca uma bisnaga de cola e a enterrou bem escondida no jardim. A travessura custou ao menos meia hora do serviço, o tempo necessário para procurar e encontrar a bendita cola para finalizar o conserto. Também já desisti de fazê-la ficar amiga das galinhas. Apesar dos esforços, a Sandy, sem mais nem menos, tem uma recaída e persegue as pobres galináceas, sem dó, até estressá-las no limite ou abocanhar uma delas.

Isso remete ao instinto. Nós queremos que os cachorros tenham um comportamento humano, inclusive com regras mínimas de higiene. Mas nossos amigos de quatro patas, no frigir dos ovos, seguem mesmo seus próprios instintos, e por isso enterram bisnagas, caçam galinhas, fuçam o lixo e latem de forma descontrolada em alguns momentos. Não adianta explicar que o barulho irá incomodar os vizinhos, principalmente quando o festival de latidos e uivos acontece às 5 horas da manhã. Haja paciência e broncas!

Me surpreende que, em seu comportamento, os cachorros não cultivem a vingança, sentimento que invariavelmente assedia o lado mais escuro de nossa alma. E que o amor que sentem se mostre tão espontâneo. Quando aprontam e levam uma reprimenda, parecem saber e demonstrar que fizeram algo reprovável. Mas não guardam mágoas, pelo contrário, logo estão faceiros, brincalhões e afetivos, esperando uma boa oportunidade para nos lamber ou receber um carinho. Sem dúvida, uma troca de afeto e energia que nos faz muito bem nesse mundo frio e de relações artificiais em que vivemos.

A relação com o melhor amigo e o significado dessa aliança estão presentes na História, na literatura e no cinema. Quem não se lembra da collie Lassie ou, os mais antigos como eu, do pastor Rin Tin Tin? Mais recentemente, do labrador incorrigível e simpático de “Marley & eu”? No filme “Sempre ao seu lado”, com Richard Gere, confesso que derramei algumas lágrimas. O remake, de 2009, conta o comovente exemplo de fidelidade de um cachorro da raça Akita que não aceita a morte de seu dono (Gere) e, por anos a fio, permanece esperando-o chegar do trabalho, em frente a uma estação de trem, como estava acostumado a fazer.

Um dos melhores livros que li nos últimos anos foi “O homem que amava os cachorros”, no qual o escritor cubano Leonardo Padura, com maestria, conduz três narrativas paralelas: a do revolucionário Trotsky, a de seu assassino Mercader e a de um terceiro personagem, um escritor cubano fictício. A figura dos cachorros permeia situações descritas na obra, uma delas o alívio e prazer solitário que Mercader tinha, já no final de sua vida, com seus dois Borzóis russos que levava para passear na praia.

Os cachorros acompanham nossas vidas faz um bocado de tempo. Algumas teorias apontam que esse relacionamento teve início há mais de 100 mil anos, outras indicam menos tempo. Fósseis de humanos e cães enterrados juntos há cerca de 20 mil anos já foram encontrados. O consenso é que derivam dos lobos e se aproximaram do homo sapiens pela conveniência em encontrar restos de alimentos. Daí para a domesticação foi um pulo, primeiro pela utilidade, com o homem fornecendo comida e o cão, em troca, devolvendo com proteção, vigilância e pastoreio. E, nos tempos mais modernos, pelo afeto.

Hoje, estão espalhados por todo o mundo, dezenas e dezenas de milhões, fazendo parte de nossas vidas e nos proporcionando emoção boa e também aprendizado. Desde a infância, nos anos 70, foram muitos os meus cachorros – o boxer Cacique, o fox paulistinha Tegu, o cocker spaniel Tucky, os vira-latas Ruth e Fliper e, por fim, a Sandy, cada um tendo a sua importância e impacto na minha formação. Ao contrário daquele que, entre cães e humanos, prefere lidar com os primeiros, eu ainda opto por gente e assuntos ligados às pessoas. Mas, sem dúvida, a convivência com os cachorros nos torna mais sensíveis e, arrisco afirmar, melhores. Ei, Sandy, vamos dar uma passeadinha?

Gustavo Junqueira / Jornalista

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