Clemente, a morte do sobrevivente

Coragem e bravura, mesmo que no limiar da inconsequência e da irresponsabilidade, sempre foram atributos que me fascinaram. Exemplos de pessoas que ousaram enfrentar adversários muito mais fortes e situações praticamente perdidas, mesmo em nome de um ideal questionável e fazendo uso da violência extrema, são, no mínimo, merecedores de registro, ainda mais quando, contra todas as probabilidades e estatísticas, sobreviveram. Esse foi o caso de Carlos Eugenio Paz, o comandante Clemente, dirigente da ALN, a Ação Libertadora Nacional, principal organização guerrilheira de combate à ditadura militar no Brasil nos final dos anos 60 e início dos 70, criada por Carlos Marighella e que teve praticamente todos seus líderes mortos ou capturados pela repressão.

Pois bem, fico sabendo surpreso que o “sobrevivente” morreu no último dia 29 de junho bem aqui na nossa Ribeirão Preto, no HC, aos 69 anos de idade. Se escapou durante mais de cinco anos de tiros, tocaias e do pau-de-arara, não conseguiu driblar uma insuficiência respiratória decorrente de um provável câncer de laringe – ele sempre fumou muito. Guerreiro e herói merecedor de homenagens de acordo com a visão da esquerda, Clemente, para a direita, representa apenas mais um terrorista impiedoso e sem princípios que queria implantar no Brasil um ferrenho regime totalitário comunista. De fato, nunca foi um democrata e nem tão pouco lutou por democracia, ao contrário, acreditava numa ditadura proletária liderada por Marighella, embora refutasse isso em entrevistas. Mas vamos relembrar um pouco de seu passado para que o leitor tire suas próprias conclusões.

Nascido em Alagoas, morava no Rio de Janeiro ainda adolescente quando conheceu Carlos Marighella, o principal nome da luta armada no Brasil e que não teve escrúpulos para “catequizar” um menino de 16 anos e transformá-lo num devotado subversivo infiltrado dentro do Forte de Copacabana, onde teve instrução militar. Dois anos depois, por volta de 1969, desertou para dar início à revolução quando as organizações de esquerda armada estavam fortalecidas e ainda secretas, e a ditadura militar operacionalmente despreparada para enfrentá-las. Em sua primeira ação pra valer, Carlos Paz e seu grupo assaltaram um cinema, deram mais de 10 tiros no vigia, sem matá-lo, e fugiram sem levar um tostão. Um simples roubo travestido de expropriação.

Marighella morreu emboscado em novembro de 1969 pelo delegado Fleury e o jovem Clemente, aos 20 anos, foi alçado à condição de comandante militar da ALN mudando-se para São Paulo. Por mais de três anos, viveu uma rotina insana e cinematográfica de fugas, ataques, assaltos a bancos, escoltas, atentados, sequestros, tiroteios, assassinatos e justiçamentos, dia após dia, noite atrás de noite. Dormia e andava com granadas no bolso, revólver e pistola na cintura e metralhadora na sacola de supermercado, bem ao alcance da mão. Pulava de aparelho (gíria para esconderijo) em aparelho, rompia cercos policiais, dirigia como um piloto carros roubados pelos diferentes atalhos de bairros paulistanos. Dizia que dificilmente seria pego vivo e que, caso o encurralassem, morreria sem não antes levar junto com ele alguns de seus perseguidores. Sabia como ninguém agir sob extrema pressão, pressentia o perigo, atacava ou escapulia e, ainda, manejava armas com destreza e atirava muito bem.

Logo sua cabeça foi colocada a prêmio e seu rosto estampado em cartazes em postes abaixo dos dizeres “Procura-se”. O delegado Fleury, do DOPS, e o comandante Brilhante Ustra, do DOI-CODI, os dois principais órgãos de repressão e verdugos dos combatentes de esquerda, não mediram esforços em caçá-lo, torturá-lo e matá-lo. Centenas de policiais, agentes e militares tentaram até 1974 colocar suas mãos sedentas de raiva em Clemente, mas falharam. Enquanto isso, ele tocou o terror e aprontou pra valer..

Tomemos o ano de 1971, por exemplo. Nessa data, quase sequestrou o chefe de Ustra, o comandante do II Exército general Humberto Melo à porta de uma igreja na Vila Mariana. Forças do DOI-CODI chegaram de surpresa ao local no momento da captura do general e todos, sequestradores, refém e agentes militares, ficaram sob a mira de armas. Um incrível e rápido acordo em alta tensão foi negociado, sem nenhum tiro disparado, e os guerrilheiros fugiram. No dia 23 de março, no ato talvez mais polêmico da trajetória de Clemente, ele foi inclemente. Matou com vários tiros, juntamente com outros três companheiros, na região da Consolação, um integrante da coordenação nacional da ALN, Márcio Toledo, suspeito de poder desertar e entregar planos da organização para a polícia. Após uma decisão coletiva da receosa cúpula do grupo, decidiu-se pelo ato de justiçamento preventivo.

Já em 15 de abril daquele mesmo ano, Carlos Paz foi quem deu o tiro de misericórdia, numa rua dos Jardins, num apavorado Henning Boilesen, líder empresarial assassinado por um comando guerrilheiro por suspeita de financiar o aparato de repressão e de assistir sadicamente a sessões de tortura e interrogatório de presos políticos (aos interessados, recomendo o bom documentário “Cidadão Boilesen”, de Chaim Litewski). Também, em data incerta, enfrentou Fleury num tiroteio acertando de raspão o nariz do temido delegado, que o perseguiria sem tréguas até prender a mãe de Clemente, Maria da Conceição, ou “Joana”, em 1974, e torturá-la. O filho procurado, no entanto, já havia deixado o país e se encontrava no início de um exílio, que durou até 1981. Foi anistiado no ano seguinte após uma disputa judicial no STF, pois permanecia condenado à revelia a 124 anos de prisão.

Em 1973, com a guerrilha urbana praticamente destroçada no Brasil, Carlos Paz fugiu pela Argentina, viajou para Cuba, fez treinamento e recebeu uma proposta de retornar liderando uma coluna rural de guerrilheiros cubanos. Recusou a oferta, foi para a Europa e viveu muitos anos em Paris, onde chegou a ser viciado em heroína e formou-se, pasmem, como músico. De volta ao Brasil, trabalhou como professor de música, deu palestras, escreveu dois livros nos anos 90, “Viagem à Luta Armada” e “Nas Trilhas da ALN”, e tentou, em 2010, se eleger deputado, mas teve uma votação inexpressiva. Aproveitou o “Bolsa Ditadura” e ainda conseguiu se “reintegrar” às Forças Armadas como terceiro-sargento da reserva.

Nos últimos tempos, vivia em Ribeirão Preto junto com a historiadora Maria Claudia Badan, autora do recente livro “Mulheres na luta armada: protagonismo feminino na ALN”. Quem quiser conhecer um pouco mais sobre Carlos Paz, aguarde até o final desse ano o prometido lançamento do documentário “Codinome Clemente”, da diretora Isa Albuquerque. Assim como o filme “Marighella”, de Wagner Moura, ainda sem data para estrear, provavelmente trará um viés positivo do personagem enaltecendo seus feitos de bravura temperados com a chamada violência revolucionária, aquela cometida em nome dos pobres e da justiça.

Retorno ao primeiro parágrafo e deixo aqui confessada minha admiração apenas pelo lado destemido de Clemente. O de, por um ideal, se jogar com a cara e coragem na luta perdida e ir até o fundo do poço, sem desistir ou medir as consequências, contra forças bem mais poderosas, e sobreviver. Sua audácia também é percebida no período pós-anistia, quando em oposição à boa parte dos ex-combatentes de esquerda, nunca se arrependeu ou fez autocrítica. Afirmou que faria tudo novamente e, se possível, de forma mais competente, já que guerra é guerra e sua causa era justa. E mais: revelou,  sem melindres, detalhes de suas ações, mesmo as mais violentas, e desafiou os militares a fazerem o mesmo assumindo a autoria da tortura e dos desaparecimentos. História é História e tem que ser apurada e registrada, justificava.

Tornou-se, então, uma figura meio maldita, quase que indesejável para uma esquerda que, nas últimas décadas, posou de vítima e, muitas vezes, de arrependida. Quelé, outro de seus codinomes, teve ainda o gostinho de ver seus cruéis arqui-inimigos Fleury e Ustra morrerem antes, respectivamente em 1979 e 2015. Mas para por aí seu triunfo. Sua concepção política e convicções eram, ao final e ao cabo, erradas e permaneceram bem distorcidas até o fim da vida, como se podia perceber em seus depoimentos e entrevistas. A impressão que se tem é a de que Carlos Paz acabou vivendo sempre em guerra com o mundo e consigo mesmo.

Gustavo Junqueira / Jornalista

Carlos Eugenio em 70
Carlos Eugenio Paz nos anos 70 nos cartazes de “Procura-se”

 

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: