Não tão ruça quanto na Rússia

Nesse dia 17 de julho completam 101 anos que o Czar Nicolau II e sua família foram massacrados por bolcheviques no porão de uma casa em Ecaterimburgo, na Rússia, enterrando de vez a dinastia Romanov após mais de 300 anos de dominação. O desastroso governo de Nicolau II, de 1894 a 1917, e seu martírio são bem retratados na interessante série “Os últimos czares”, disponibilizada esse mês na Netflix, cujos seis episódios dramáticos me prenderam à frente da telinha na última semana.

O mergulho na História sempre é uma experiência fascinante de aprendizado e de sensações, nos levando a participar de eventos do passado cujo desfecho já conhecemos. O engraçado é torcer para que a narrativa mude e tenha um final mais feliz, como se fosse possível voltar atrás e reescrever fatos históricos. Ou imaginar o que poderia ter sido diferente se, na marcha dos acontecimentos, os protagonistas tivessem tomado decisões mais sensatas. E ainda comparar o cenário sombrio e de transformação do início do século XX na Rússia com a nossa realidade atual no Brasil.

“Os últimos czares” evidencia como Nicolau II estava mesmo fadado a um fim trágico. Já no seu coroamento, após a morte de seu pai, um erro na organização dos festejos degringola para uma tragédia na qual milhares de pobres súditos são pisoteados, feridos e mortos. Ainda agarrado às tradições dos antigos czares Romanov e acreditando ser ele mesmo um escolhido por Deus, Nicolau II não percebe que o mundo mudou.  Insiste em governar despoticamente e sem um parlamento. Em 1905, reprime violentamente manifestantes em São Petersburgo com mais uma penca de mortos no chamado Domingo Sangrento. A economia da Rússia fraquejava e o país era humilhado pelo Japão na guerra em que se enfrentaram naquele ano.

Tudo isso criou um cenário perfeito para uma revolução. Para piorar, o único filho menino de Nicolau II e sua esposa Alexandra, Alexei, herdeiro do trono, nasce hemofílico. Para garantir a sobrevivência do filho, o casal se aproxima de uma sinistra figura, Rasputin, um misto de curandeiro, religioso e visionário que consegue atender com êxito as crises de sangramento de Alexei. Em pouco tempo, transforma-se numa figura poderosa do Império influenciando as decisões de Nicolau II (me lembrando um pouco o nosso estimado astrólogo Olavo de Carvalho),  até ser barbaramente assassinado em 1916. Nessa época, o governo czarista já vivia seus estertores, atolado em batalhas perdidas da I Guerra Mundial

Com o vácuo de poder, resultado da esmagadora crise econômica, da vergonha das derrotas militares e da inépcia da Nicolau II para governar, a Rússia entra em colapso. Quando o czar é forçado a abdicar em março de 1917, um governo provisório ainda tenta manter as rédeas, mas os bolcheviques liderados por Lenin e Trotsky tomam o poder de assalto em outubro daquele ano selando de vez a sorte de Nicolau II e sua família, que já não tinham mais como fugir. Vivem mais oito meses acuados e pressionados até a execução sumária consumada por bolcheviques receosos de que a antiga família real fosse resgatada pelo exército branco, já nas proximidades de Ecaterimburgo, ainda no início da guerra civil russa.

O desenrolar dos fatos nos ensina a não brincar no poder e a não desperdiçar as oportunidades de mudança e aprimoramento que o destino nos apresenta. O Brasil sempre perdeu o bonde da História, mas ao mesmo tempo conseguiu manter boa parte da institucionalidade ao longo do período republicano. Sim, tivemos revoluções e golpes, mas nada similar ao que ocorreu na Rússia, principalmente no número de mortes, na casa das dezenas de milhões. Algumas vezes, em momentos de fúria, desejei que uma turba insana cercasse a Praça dos Três Poderes em Brasília e não deixasse pedra sobre pedra, mas isso nunca chegou perto de acontecer.

O golpe (ou revolução, para alguns) de 1964 não precisou nem dar tiros. Mesmo os anos de chumbo da ditadura deixaram menos mortos do que um Domingo Sangrento russo. Nossos líderes expurgados da presidência – Collor e Dilma – continuam por aí perambulando na política sem terem suas famílias trucidadas. Lula, mesmo preso, é muito bem tratado e consegue lá de dentro da cadeia fazer política e se apaixonar. E, quando a chapinha começa a esquentar a ponto de erodir de vez nossas instituições, estas conseguem reagir e promover avanços tais como o Plano Real e a Reforma da Previdência.

E assim seguimos, nos passos lentos de uma democracia que não se permite disrupções extremas. Melhor assim, já que um dos mais terríveis governos de todos os tempos, o de Stalin, de 1924 a 1953, nem de longe significou uma evolução para o sofrido povo russo da época do czar. Aqui, nossas mazelas atuais, menos sanguinárias, podem ser conferidas também na Netflix em séries como “O mecanismo” ou em documentários enviesados como “Democracia em vertigem”. Felizmente, nossa situação nunca ficou tão ruça quanto na Rússia.

Gustavo Junqueira / Jornalista

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: