Uma conversa sobre o samba-canção

A morte recente de João Gilberto jogou nova luz sobre a Bossa Nova e seu gene inovador, que modernizou a música popular brasileira, fazendo soar anacrônico tudo o que veio antes dela. Difícil contestar essa revolução que teve no violão de João, nas letras de Vinícius de Moraes e na música de Tom Jobim, seu ápice estético.

Mas alguns livros lançados nos últimos anos jogam um pouco de fumaça e aquela meia luz de uma típica boate do bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro, dos anos 40 e 50, nessa história.  “Copacabana: a trajetória do samba-canção (1929 -1958)”, editado pela Editora 34, do  musicólogo, jornalista e produtor musical Zuza Homem de Mello, reivindica para o samba-canção, gênero que para  muitos era sinônimo de música de dor de cotovelo e até brega, também essa plataforma da modernidade, que teria contribuído, antes da Bossa Nova, para o salto evolutivo da música popular brasileira.

O público de Ribeirão Preto terá a chance de provar se o samba-canção é o tal mesmo. Zuza Homem de Mello, que tem 65 cinco anos de trabalhos dedicados à pesquisa da música brasileira e do jazz, estará no Sesc Ribeirão no dia 10 de agosto, sábado, às 19 horas, para falar sobre seu livro. O bate-papo será musicado pela dupla Luciana Alves e Ronaldo Rayol, que apresentará clássicos desse samba mais lento, melódico e romântico que é o samba-canção.

Zuza pesquisou por 10 anos o tema e concentra seu livro no período do auge do samba-canção, os anos 40 e 50,  focando no bairro de Copacabana e suas boates, como o centro criativo e gerador dos sambas de fossa, como também eram chamadas a canções compostas por nomes como Ary Barroso, Dorival Caymmi, Lupicínio Rodrigues, Herivelto Martins, Dolores Duran e Maysa, entre tantos, e interpretadas por vozes como Linda Batista, Dick Farney, Dalva de Oliveira, Nora Ney e Elizeth Cardoso. Mas também vai até o ano de 1929 e identifica em “Linda Flor”, gravada por Aracy Cortes,  um samba-canção pioneiro, assim como em certas composições de Noel Rosa, como Feitio e Oração (1933) e Feitiço da Vila (1934).

O pesquisador defende que canções como Copacabana, Na Batucada da Vida, Você não Sabe Amar, Marina, Sábado em Copacabana, entre tantas, são exemplos dessa plataforma de modernidade.  Para Zuza, o samba-canção modernizou a música popular em todas as áreas, no ritmo, melodia, harmonia e letra. Um ritmo mais suave e cadenciado, com notas alongadas, que permitem que a célula rítmica do samba fosse melhor aproveitada para um texto bem romântico.  Assim o samba-canção fez a composição popular avançar. E Zuza saca algo ainda mais iluminador nesse mundo de boates e inferninhos.

As composições de samba-canção têm como marca a divisão clássica estrutural da canção que é formada pela primeira parte, refrão e segunda parte. Para Zuza, é nas segundas partes das canções que os compositores abriram os horizontes pra música brasileira popular. Ele diz que no samba tradicional a segunda parte era, geralmente um prolongamento da primeira seção da música. Com o samba-canção,  a composição abre uma passagem para um novo horizonte, com segundas partes que, muitas vezes, são quase uma nova composição.

Era a canção se transformando no ritmo das mudanças do país, simbolizada no crescimento do bairro de Copacabana, que concentrava as principais boates onde os artistas do samba-canção se apresentavam entre os anos 40 e 50.  Lugares menores, apertados, que pediam uma instrumentação mais intimista, feitos pra dançar de rosto colado. Diferente dos antigos cassinos, proibidos por lei em 1946, que abrigaram grandes orquestras, os artistas do Rio de Janeiro e números musicais mais festivos.

Quem quiser saber mais sobre esse tema, ouvir histórias e samba-canção, é só correr pro Sesc Ribeirão no sábado. Zuza Homem de Mello, além de todo o conhecimento, no alto dos seus 85 anos de idade, tem o entusiasmo e alegria do bom contador de história.

Rodrigo Pinto Pinto / Jornalista

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