Impressões da terra da rainha

Depois de mais de duas semanas de férias na Inglaterra cruzando o país de norte a sul, trago algumas impressões interessantes da terra da rainha, sua cultura e bons exemplos.. Potência colonial e soberana nos mares por alguns séculos, a Inglaterra é referência quando se fala em liberalismo e democracia. Vive hoje o dilema do Brexit questionando a lógica dominante da globalização. Para nós, brasileiros, vale a pena dar uma olhadinha no que acontece naquela ilha se quisermos avançar mais um pouco em cidadania e desenvolvimento.

Chama a atenção como cuidam do seu passado. Seja em cidades grandes ou pequenas, lá estão construções em bom estado que datam de 20, 10 ou cinco séculos atrás, com informações sobre origem e função. Aqui e ali podemos entrar num pub de 200 ou 300  anos de existência e tomar uma pint de diferentes cervejas de boa qualidade. Os centros históricos são limpos, seguros e organizados e, ao invés de mendigos, encontramos músicos e artistas. Há museus por toda a parte e assim cuidar bem da memória coletiva é uma dádiva reciclando sentimentos de pertencimento, de conhecimento e de esperança.

Mas como ninguém vive apenas do passado, impressionou-me a eficiência do atual trânsito inglês. Primeiramente, temos que nos acostumar com a mão inversa, um bom treino para nosso cérebro quando estamos dirigindo. O tráfego é intenso com milhões de carros ocupando ruas e estradas sem buracos de forma ordenada e em diferentes regiões do país As regras são respeitadas e os motoristas, educados. Nos cruzamentos, todos sabem a hora certa de parar ou seguir, avançar ou ceder. Uma forma racional de preferências já está assimilada pelo inglês tornando seu trânsito mais humano e menos selvagem.

Nos relacionamentos familiares pude perceber uma sintonia positiva entre diferentes gerações. Ao escalar o pico mais alto da Inglaterra, o Scafell Pike, com 976 metros de altitude na região de Lake District, deparei-me com uma longa fila que tinha, de um lado, senhores e senhoras com mais de 70 anos e, de outro, crianças de quatro e cinco anos. Famílias inteiras caminhando montanha acima, juntas e acompanhadas por seus cachorros, demonstrando que uma atividade normalmente associada a jovens ousados pode muito bem ser usufruída também por vovôs e vovós com seus netinhos e netinhas em jornadas cansativas de até seis horas de duração. Muito bacana!

Em Bristol, uma cidade um pouco menor do que Ribeirão Preto, desejei ter a companhia de nosso prefeito Duarte Nogueira para que ele se inspirasse naquele espaço urbano. Centro universitário de renome, Bristol construiu uma atmosfera vibrante congregando estudantes, parques, história, agitação cultural e qualidade de vida. Afinal, o que mais queremos senão um lugar agradável para viver, bonito de se ver, sem ruas esburacadas, com serviços públicos que funcionem e com uma economia que gere oportunidades para a maioria?

Já fui criticado por escrever em outras ocasiões comparações consideradas descabidas. A ideia aqui não é transformar Ribeirão Preto e o Brasil na Inglaterra, mas aprender um pouco com experiências de quem conseguiu avançar um pouco mais na difícil missão  de fazer milhões de pessoas viverem juntas em sociedade com alguma harmonia e senso de justiça. Muitos dirão que a Inglaterra obteve algum êxito nesse quesito porque explorou e ainda explora nações subdesenvolvidas, mas enxergo de outra forma.

Optaram pelo Brexit, mas a sensação que tive por lá é que hoje a maioria dos ingleses preferiria voltar atrás. O novo governo de Boris Johnson promete levar a cabo ainda este ano a saída definitiva da União Europeia. Acredita-se que seja uma decisão equivocada e que trará consequências negativas para a economia britânica. Vamos aguardar e esperar, mas os antiglobalistas verificarão na prática se fechar fronteiras e dificultar a circulação de pessoas e mercadorias pode ser uma saída viável para o desenvolvimento dos países. Tenho minhas dúvidas …

De volta a Ribeirão Preto e a suas ruas e avenidas tomadas por restos de jardim que a Prefeitura não consegue nem recolher, vamos em frente em busca da utopia de transformar nossas cidades em locais mais amigáveis e agradáveis. Quem sabe um dia elas se tornem também mais do que um exemplo para inglês ver.

Gustavo Junqueira / Jornalista

 

 

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