Sombrio, mas com humor

Não sei se acontece com o leitor, mas toda vez que vejo o Trump na TV ou leio alguma matéria sobre ele e suas decisões, um pequeno mal-estar se instala no meu estado de espírito. Isso porque o alaranjado presidente está sempre vociferando, atacando retaliando ou desafiando. Nunca o vejo numa postura solidária e amigável, pelo contrário, parece ter prazer no confronto, nas respostas mal educadas e no egoísmo. America First! O mundo, para o mandatário americano, é um negócio e como tal precisa ser tratado de forma bruta e visando sempre vantagens comerciais e financeiras, e não equilíbrio e compartilhamento.

Bolsonaro não foge a essa regra. Parece ter o dom para valorizar o desagradável, de trazer à tona uma piada de mau gosto num momento inoportuno. Desconstruir é sempre mais divertido do que somar. Mais uma vez ele desenterra a história de que o major Brilhante Ustra, ex-comandante do DOI-CODI nos anos 70, é um herói. Mas como assim? Um notório torturador? Imaginem se Angela Merkel ficasse declarando por aí que o carrasco nazista Himmler teve sua imagem deturpada e que o povo alemão deveria reconhecê-lo como um exemplo de honradez e de defesa da pátria? Assim como Trump, Bolsonaro também aprecia o tal mal-estar.

A impressão que tenho, por estes e outros exemplos, é que vivemos tempos mais sombrios. No sentido de haver uma carga negativa de percepção do presente e de pessimismo com relação ao futuro. E os líderes mundiais colaboram decisivamente para esse panorama acinzentado como há muito não se via. Putin é uma figura sinistra que envenena inimigos no exterior e esconde acidentes radioativos na Rússia enquanto Kim Jong-um, da Coreia do Norte, é um patético ditador que brinca com armas nucleares. Erdogan, da Turquia, mostra-se um autoritário com fantasias de sultão. E até a Inglaterra traz hoje um primeiro-ministro, Boris Johnson, que prega a separação ao invés da integração.

Alguns amigos meus gostam hoje de salientar o sucesso da China, que em 30 anos retirou centenas de milhões de habitantes da pobreza e atualmente já ameaça a liderança econômica dos Estados Unidos. Tudo bem, o avanço é indiscutível, mas e a liberdade? Seria o modelo chinês o paradigma do século XXI. Tecnologia, produtos de consumo baratos e trem-bala para toda a população, mas com internet controlada e sem o direito de criticar o governo? Esse modelo me assusta e lembra, em modelagem mais moderna, a dominação opressiva do Estado em “1984”, de George Orwell.

Mudando de governos e países para o meio ambiente, nessa seara as notícias também não são as mais animadoras. Até o aquecimento global é contestado e por isso Trump, Bolsonaro e outros com poder que convergem nessa linha trabalham para flexibilizar acordos e promover investimentos, como mineração, em áreas de preservação que deveriam ser protegidas. Cada imagem de desmatamento da Amazônia ou de derretimento da calota polar nos atinge como um soco no estômago e nos faz pensar: que tipo de planeta queremos legar para nossos netos, ou melhor, será que vale a pena ter filhos e netos nesse futuro que pode ser tenebroso? E o pior, com as pessoas tendo cada vez menos filhos e vivendo mais tempo, no final desse século seremos um mundo de muitos velhos e poucos jovens … pior para a Previdência e para a sobrevivência da espécie humana.

Nem sempre as perspectivas foram assim nas últimas décadas. Nos anos 80 do século passado, a incômoda Guerra Fria foi sepultada com o colapso da União Soviética e a derrubada do Muro de Berlim soprou esperança e os ventos da liberdade. Nos anos 90, tivemos Nelson Mandela brilhando na África do Sul, a internet abrindo novas perspectivas para a humanidade, a globalização prometendo reduzir as desigualdades e, no Brasil, o dragão da inflação domado pelo Plano Real. Mais recentemente, o ambiente era mais promissor por aqui com um operário na presidência da República liderando incialmente uma economia em crescimento (Lula 1) e, nos EUA, a partir da crise de 2008, pela primeira vez na História um presidente negro, o simpático e positivo Obama.

Bem, para botar mais lenha na fogueira, as economias globais tiveram um solavanco nessa semana que passou prevendo uma recessão mundial. Que beleza! Quem conseguiu chegar até aqui nesse texto pode se surpreender com o desânimo do autor e sugerir que ele vá se tratar com um psicólogo ou praticar yoga.

Calma lá, ainda não estou deprimido! Em conversa recente com uma tia formada em filosofia, ela me contou do difícil momento em que vive, pois vários amigos e parentes queridos estão morrendo nos últimos meses, basicamente, de velhice e doenças associadas. Concluímos, filosoficamente, que a vida é mesmo uma tragédia, pois seu fim é a morte certa. E o remédio? O humor, isso mesmo, o bom humor para lidar e caçoar dos infortúnios pessoais, existenciais e gerais. Que tal uma piada ou comentário irônico a respeito do nosso futuro sombrio?

Gustavo Junqueira / Jornalista

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