Um limite para o comportamento das torcidas

Um grupo de torcedores gritando e cantando ofensas homofóbicas em uma partida de futebol do campeonato brasileiro interrompida por alguns minutos. Assim foi Vasco x São Paulo no último dia 25 de agosto, no Rio de Janeiro, na vitória do time carioca que pode perder os pontos em razão do comportamento de sua torcida. A polêmica coloca em discussão novamente quais devem ser os limites dentro de um estádio de futebol, um local que ao longo do tempo se transformou em escoadouro para frustrações, raivas, preconceitos, desejos e emoções de pessoas comuns.

Não sou muito assíduo em arquibancadas ou numeradas, mas quando vou ao campo, desde criancinha, me espanta a vitalidade e determinação com que algumas pessoas xingam jogadores, juízes e adversários. Do nada, o cidadão ou grupo se levanta, profere toda sorte de palavrões contra seu alvo, senta-se e continua a assistir ao jogo até a próxima oportunidade para repetir ou inovar seu sonoro repertório de impropérios. Esse comportamento transformou-se numa instituição, ou seja, o momento em que o ser humano põe pra fora tudo que tem reprimido dentro de si, suas angústias e vontades aprisionadas ao longo da semana em casa, no trabalho e nas ruas.

Torcer de forma agressiva e retumbante, sem qualquer consideração ou racionalidade, parece dar prazer e alívio. O espírito coletivo e o pertencimento a um grupo ou a uma organizada fornecem uma sensação de poder e blindagem, na qual a liberdade seria ilimitada para se dizer ou cantar aquilo que brota na alma, arde nos pulmões e reverbera nas cordas vocais. Não à toa que ficou famosa aquela máxima de um árbitro que disse ter duas mães: a que leva ao campo e a que deixa em casa. Já imaginou o desconforto de ter milhares de pessoas gritando horrores a respeito da reputação de sua progenitora?

Mas com a onda do politicamente correto e a busca natural por uma maior civilidade nas relações humanas, o cerco aos mais exaltados tem se intensificado visando separar, mesmo com fronteiras tênues, o que é brincadeira, brincadeira de mau gosto e crime. Há cinco anos, uma torcedora do Grêmio, em partida de seu time contra o Santos, foi flagrada pelas câmeras de TV proferindo injúrias raciais contra o goleiro Aranha. Execrada publicamente, teve sua vida colocada ao avesso como castigo. E na Copa da Rússia, torcedores brasileiros também pagaram uma conta pesada ao serem expostos nas mídias sociais como machistas arrogantes tripudiando de mulheres estrangeiras a quem ensinavam repetir, em voz alta, palavrões em português sem que soubessem o sentido.

O recente caso de Vasco x São Paulo traz agora responsabilidade também para o time da casa que, mesmo vencendo no gramado pode perder no tapetão em razão das atitudes de sua torcida. A homofobia, por alguma razão, se recaiu contra o São Paulo desde os anos 90. O ex-jogador Vampeta, do Corinthians, chegou mesmo a lançar a expressão “time dos bambis” contra o adversário. O preconceito atingiu níveis insuportáveis à época em que o jogador Richarlyson atuou na equipe e recebia um tratamento quase desumano por boa parte de todas as torcidas pelo fato de ser considerado gay.

Escrevo essas linhas sem juízo de valor, ou seja, não me atrevo aqui a afirmar o que é certo ou errado ou qual deve ser o exato limite do comportamento das torcidas. O respeito à dignidade, creio, é uma meta a ser perseguida, mesmo nas arquibancadas. Os negros e LGBTs foram sempre humilhados ao longo de nossa história, se organizaram, lutaram, obtiveram conquistas e hoje são merecidamente protegidos pela legislação, que tenta agora dar um basta à discriminação, ao racismo e ao preconceito que vigorou e ainda é perceptível nos estádios.

Essa batalha será longa e enseja novas discussões. Por exemplo, os juízes e bandeirinhas de futebol poderão também exigir o direito de não serem mais sonoramente ofendidos como ladrões e corruptos ao entrarem em campo e a cada vez que soprarem o apito ou levantarem a bandeira. Os centroavantes, a cada gol perdido, exigirão maior cordialidade por parte da torcida, assim como os goleiros, ao tomarem um frango. E as prostitutas, categoria que compõe a mais antiga das profissões, contestarão com razão o fato de fazerem parte do mais tradicional xingamento do Brasil, o fdp.

O fato é que palavras, ainda mais as de baixo calão e grosseiras, podem doer ou atingir mais a fundo do que pedradas. Carregam sentidos afiados e interpretações dúbias que reforçam injustiças. Ao mesmo tempo, são reações espontâneas que traduzem um sentimento pessoal, caráter e cultura. E no caldeirão dos estádios de futebol, tudo isso ganha volume e visibilidade. Que avancemos com equilíbrio nesse difícil processo de acomodação e pressurização das relações humanas.

Gustavo Junqueira / Jornalista

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