Uma carta de mãe para filho

Messias, meu filho querido! Aqui de Miracatu, sua velha mãezinha, já na casa dos 90 anos, anda um pouco preocupada com você. Por isso escrevo, com o coração já um pouco cansado e agora mais apertado, para te dar uns conselhos. Você sempre foi um menino bonzinho, obediente e responsável, e sei que continua sendo. Andam falando muitas coisas ruins a teu respeito, mas quero dizer que tenho muito orgulho de ser tua mãe, e sei que você quer o melhor para teu país e para o povo brasileiro.

Mas, filhote, sempre te alertei que não adianta ser mal-educado, fazer malcriação e birra. Isso não leva a nada!  Você, quando garoto e depois mais jovem, gostava de ser respondão e não levava desaforo pra casa. Se defender atacando não é a melhor saída para a gente conseguir o que quer, lembre-se disso. Claro, ninguém está pedindo para você ser um banana, mas um pouco de ponderação ajuda mais do que atrapalha. Antes de retrucar, conte até cinco que a raiva passa, o raciocínio clareia e as palavras ficam mais doces. Estamos precisando de mais entendimento e menos discórdia.

Sei que as coisas andam difíceis, não tem dinheiro pra nada, é todo mundo pedindo isso e aquilo, reforma pra lá e pra cá, queixas e notícias falsas. Essa tal de “feiquinius”, é assim que fala, né? Mas não é porque tem “feiquinius” a teu respeito que você precisa inventar notícias dos outros, né? Sabe como é, Deus castiga quem faz coisa errada. E vou te falar o que me anda incomodando ultimamente.

Essa história de você ficar lembrando toda hora daquele major, o Carlos Alberto, que cuidava há quase 50 anos daquele tal de destacamento de operações internas em São Paulo, é isso? Messias, quanta gente morreu e apanhou naquele lugar? Ainda que fossem comunistas, quem merece acabar a vida daquele jeito, tomando choque e sendo espancado? Tudo bem, o Carlos Alberto estava combatendo terroristas, mas não podemos passar por cima de alguns valores cristãos. Meu filho, esquece esse homem que traz muitas lembranças ruins para centenas de famílias. Ele não pode ser teu ídolo!

Outra coisa é tua fixação com aquele ex-deputado que desapareceu no Rio, pai de um escritor cadeirante. Messias, imagine o que aquela família não sofreu! Invadiram a casa, levaram o pai na frente de todos os filhos, torturaram, mataram e sumiram com o corpo. E você continua insistindo que ele era terrorista e que ajudava o capitão desertor morto na Bahia. Mesmo que fosse, meu filho, não se pode ainda hoje ficar desrespeitando uma família que passou por essa tragédia … me disseram que você até cuspiu no busto desse ex-deputado, mas eu não acredito nisso.

O mesmo conselho vale pra esse caso recente em que você se meteu a discutir com um advogado que preside a entidade de classe. Falou que ia “explicar” o que aconteceu com o pai dele! Ora, fui ler no jornal que o pai dele também sumiu naquela época da ditadura militar. E até hoje não acharam nem o corpo. Filho, pra que reabrir essas feridas? Imagine se teu pai tivesse desaparecido do mesmo jeito … quanto dor não passaríamos? Se a gente não gosta do que os outros pensam e acreditam, não podemos desejar a morte deles e nem se aproveitar das tristezas que cultivam.

E agora, Messias, levar essa tua bronca também para o exterior, o que ganhamos? Essa moça que já foi presidente duas vezes do país vizinho, parece que também apanhou na ditadura que tiveram por lá nos anos 70 e perdeu o pai dela. Pesquisei e vi que ele também era militar, como você, e tinha um cargo no governo eleito. Depois do golpe, prenderam o dito cujo três vezes, torturaram bastante até que ele morreu do coração, pois lhe negaram tratamento. Aonde você quer chegar com essas declarações? Quem pode te apoiar por falar essas maldades?

Filho, sei que você é uma boa pessoa e só fala isso da boca pra fora e para chocar seus desafetos. Mas tá pegando mal … pra você e para o país. Essa paranoia com comunismo e ditadura, isso já era. Você precisa ler outros livros, não só aquele do tal filósofo mal educado. E ficar falando de sexo e cocô toda hora também não combina com a educação que te dei. A Educação é muito importante, inclusive aquele teu auxiliar que cuida dessa área pode ser tudo, menos educado.

Sabe que às vezes penso que aquela vez quando você era menino e saiu para coletar palmitos aqui na vale junto com aquele rapaz esquisito, que usava uma camiseta com o rosto estampado daquele revolucionário barbudo de boina … você voltou de um jeito estranho, muito calado. Me pergunto se aquele rapaz não teria abusado de você, pois desde aquele dia você não suporta a cor vermelha, tem palpitação quando vê uma foice e um martelo e enxerga uma conotação sexual em tudo.

Messias, meu querido, não leve a mamãe a mal. Quero o teu bem, e te conheço melhor do que ninguém. O mundo mudou, e até uma senhora de 90 anos tem que se acostumar com os novos tempos. As famílias também se transformaram, os meninos e meninas hoje são diferentes, e a gente tem que aceitar. A pátria acima de tudo e Deus acima de todos deveria significar tolerância e amor ao próximo.

Venha me visitar, estou com saudades. Fique com Deus, um beijo carinhoso de tua mãe, Holinda.

Gustavo Junqueira / Jornalista

 

 

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