Tenho fome

É com essa frase curta e seca, às vezes finalizada com um ponto de exclamação e estampada num papelão rasgado e desbotado, que me deparo algumas vezes por semana quando paro o carro no farol vermelho na esquina das avenidas Presidente Vargas e Fiúsa, endereço que deveria representar a opulência de Ribeirão Preto e sua economia baseada na força do agronegócio. Tenho fome! Lá estão pedintes com roupas esfarrapadas e olhares ora suplicantes ora burocráticos tentando amealhar moedas junto a motoristas ansiosos para que o sinal fique logo verde.

Aqueles  instantes, que duram menos de um minuto, felizmente geram reflexão demonstrando que a alma ainda não ficou insensível. Ali dentro do veículo confortavelmente refrigerado a 22 graus enquanto o sol esturrica o asfalto, observo uma figura esquálida indo de carro em carro com seu cartaz recebendo negativas da maior parte das pessoas abordadas. Algumas vezes ele me alcança e recebe uma moeda de um real ou meia dúzia de vinténs cujo valor desconheço e se acumula no console entre os bancos, em outras oportunidades apenas visualiza, pelo vidro fechado, um polegar virado pra baixo junto com um sorriso amarelo.

A primeira reação que tenho sempre é de solidariedade e constrangimento misturados com dúvidas. Quem são eles? Como passam o restante do dia? O que comem? Onde dormem? Têm família? O que pensam e esperam do futuro? Qual diversão possuem? São condenados à tristeza ou podem ser felizes? O que fizeram para merecer aquilo? Qual a responsabilidade que tenho? Se devo ou posso ajudar? Qual a causa desse cenário? O que precisa mudar para a miséria acabar?

Em seguida, surge uma certa desconfiança temperada com um pouco de hipocrisia. Por que não buscam, por exemplo, um trabalho simples? Não seria a atividade uma indústria da esmola organizada por espertinhos que dividem de forma planejada os melhores pontos da cidade e exploram deficientes e crianças para arrecadar trocados de incautos e pessoas de boa-fé?  Vem a lembrança de um amigo que contou já ter visto um cadeirante que pedia dinheiro no farol se afastar duas quadras até seu próprio carro,  levantar-se tranquilamente, guardar a cadeira de rodas no porta-malas e ir embora para casa dirigindo com as doações obtidas.

Mas apenas a força da imagem de um maltrapilho no farol, na esquina ou deitado na calçada, aliás, de dezenas ou centenas que vemos por aí, demonstra que há algo errado na sociedade. E não pode deixar de nos chocar e fazer refletir. Antes do que procurar culpados, devemos buscar as causas, e são complexas. Não basta apenas culpar os políticos e a corrupção, é preciso ir mais longe. Resgatar aspectos históricos, analisar a conjuntura econômica, questionar políticas públicas, exigir uma tributação mais justa, um Estado com contas ajustadas e o aperfeiçoamento do capitalismo, bem como levar em consideração a psicologia humana, a mudança do próprio comportamento, ações coletivas e por aí vai.

Na correria do dia a dia, na pressão do trabalho, na aventura de pagar as próprias contas sem atraso, inclusive os impostos, e criar os filhos num ambiente pouco amigável, quase não sobra tempo para pensar e transformar o mundo a nossa volta. Nem percebemos a falta de sentido e coerência de morarmos em bunkers enquanto o espaço público, supostamente o local de encontro e integração dos habitantes de uma cidade, ser em geral abandonado, esburacado, sujo e inseguro.

Tenho fome! Um minuto se passa e o sinal fica verde. Acelero e deixo para trás o mendigo e sua busca por moedas. Novos velhos assuntos voltam à cabeça, como reuniões, prazos, tarefas, problemas, desafios, lazer e sonhos. Sinto-me quase sempre atrasado, desejo que a sexta-feira chegue logo assim como as próximas férias e viagens. Ate lá são muitos projetos e compromissos e, como diria Arnaldo Antunes e os Titãs, “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte; a gente não quer só comida, a gente quer saída para qualquer parte”.

Mais um farol vermelho e um outro pedinte. Ainda tenho fome de viver num lugar melhor, aonde não haja miséria nem tanta exclusão social, com mais oportunidades e menos desigualdades. O importante, penso, é seguir em frente sem nunca perder esse apetite.

Gustavo Junqueira / Jornalista

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