A aventura como motor da História

Há exatos 500 anos um homem obstinado, frio, autoritário e em busca de glória deu início a uma das maiores aventuras de todos os tempos. No comando de cinco navios e à frente de mais de 250 homens, ele partiu da Espanha para descobrir um oceano desconhecido e uma nova rota para as especiarias. No caminho, muita coragem, tensão, determinação e sofrimento. Fernão de Magalhães não viveu para ver o final da epopeia já que foi trucidado nas Filipinas por nativos que resolveu atacar, mas 18 de seus homens ainda conseguiram chegar, depauperados e num único barco, de volta a Sevilha após três anos enfrentando toda sorte e desafios e dificuldades. Eles haviam concluído a primeira circunavegação da Terra elevando o conhecimento que a humanidade possuía do planeta.

Magalhães, um português trabalhando para a Coroa Espanhola, é um exemplo nato de como a ousadia transformada em aventura moveu a História e nos trouxe até o século XXI. Seja por razões de sobrevivência e econômicas ou motivações pessoais e científicas, o homem sempre se arriscou a ir além do que já sabia. Basta lembrar o movimento de ocupação das Américas por povos que vieram da Ásia atravessando a pé o Estreito de Bering e, ao longo de milhares de anos, foram colonizando novas terras. Ou ainda as grandes navegações dos séculos XV a XVIII que esquadrinharam todos os mares, inclusive ao redor da Antártica, e mais recentemente a corrida espacial, levando para fora do globo nosso espírito desbravador.

Na semana que passou estive na USP ministrando uma palestra, em companhia do professor e navegador Sig Bialoskorski, sobre nossa experiência numa viagem de veleiro para o continente antártico em janeiro desse ano. Em minha fala, destaquei as principais jornadas nos últimos 500 anos que permitiram ao homem conquistar o polo sul. São histórias intensas, dramáticas e reveladoras que ajudam a entender o passado, decifrar o presente e projetar o futuro. Por exemplo, o leitor sabe porque o Oceano Pacífico tem esse nome? Pois bem, na tentativa insana para encontrar uma passagem que levasse sua pequena frota do Atlântico para o outro lado da América do Sul, Fernão de Magalhães finalmente conseguiu, em 1520, achar um estreito de difícil navegação que o conduziu, após 60 dias, a um mar de águas calmas que ele batizou como … Oceano Pacífico.

As descobertas do português propiciaram novas expedições de reconhecimento e conquista em direção à Antártica. Quem hoje olha um mapa do continente gelado percebe que ao seu redor estão estampados nomes como Passagem do Drake e os mares de Amundsen, Ross, Weddell e Bellingshausen. Cada um deles foi um grande navegador e aventureiro que alargou as fronteiras do conhecimento em viagens fantásticas e repleta de perigos e descobertas, inclusive científicas. Entender como se deram essas expedições, seus contextos e desdobramentos abre novas janelas de percepção da realidade e o que podemos esperar daqui par a frente.

Há duas semanas assisti em Ribeirão Preto a um talk show em inglês com o professor Amaury Alves entrevistando o biólogo brasileiro Ivan Lima, que trabalha como microbiologista na EU:CROPIS, uma parceria entre a NASA e a agência espacial alemã DLR. Ele pesquisa micro-organismos resistentes à radiação e até onde conseguem resistir a ambientes extraterrestres. Em comemoração aos 50 anos da chegada do homem à Lua, Lima fez uma reconstituição do incrível programa que nos permitiu pisar em solo lunar e avançar rumo a novas conquistas no espaço. Entre elas, o recém anunciado projeto Artemis, de levar a primeira mulher à Lua até o ano de 2024, e a tão esperada viagem tripulada à Marte, que ainda pode demorar mais de 20 anos.

As aventuras e almas indômitas continuarão a nos empurrar para o futuro. Quando leio sobre os 500 anos da viagem de Magalhães ou a respeito dos 50 anos da chegada do homem à Lua, meus olhos brilham e o coração bate mais rápido. Quando me recordo das montanhas que subi nos últimos 30 anos, como o Aconcágua, na Argentina, e o Kiimanjaro, na Tanzânia, uma emoção revigorante me faz querer sempre mais. Mesmo com todos os perigos, custos e desconfortos envolvidos, as aventuras sempre exercerão uma força quase magnética para seguirmos adiante experimentando-as de diferentes maneiras.

Gustavo Junqueira / Jornalista

O navegador português Fernão de Magalhães
O navegador português Fernão de Magalhães

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