A menina que quer mudar o futuro

Confesso que o depoimento teve impacto. Uma menina loira, de olhar profundo, ralhando com os líderes mundiais, com os adultos, com todos nós. Dizendo palavras fortes, que fazem sentido e geram reflexão, pois escancaram temas universais como egoísmo, preservação ambiental, estilo de vida e um futuro difícil para as novas gerações. Assim foi a bronca  de Greta Thunberg na semana passada, a sueca de 16 anos que tornou-se celebridade global em Nova York na cúpula do Clima na ONU.

A pequena e inquieta ativista possui uma história fantástica. Até 2018, era apenas uma adolescente desconhecida e portadora de uma síndrome, a de Asperger, semelhante a uma forma de autismo mais leve. Sozinha, a filha de uma cantora de ópera e de um ator iniciou protestos no Parlamento em Estocolmo contra a degradação ambiental. Logo, passou a pregar greve em escolas e, um ano depois, já conseguiu mobilizar 1,5 milhão de estudantes em mais de 100 países em marchas que reivindicaram mudanças e mais responsabilidade nas questões do clima. Já foi capa da revista Time e teve seu nome indicado para concorrer ao Nobel da Paz em 2019. Não é pouco…

Muitos vão dizer que que ela é uma marionete involuntariamente a serviço de interesses ideológicos e econômicos, ou uma adolescente ingênua com seus sonhos de uma noite de verão fabricada pelas mídias sociais. Ou que, como sueca, branca e da elite não teria legitimidade para capitanear uma luta como essa pois é uma privilegiada. Talvez por isso tenha aproveitado mais oportunidades para analisar a conjuntura e concluir que os adultos não têm mais o direito de governar o mundo da maneira atual e legar um meio ambiente em decomposição para seus filhos e netos. E, pelo que percebemos, Greta também utiliza o marketing de forma poderosa. Mas que mal isso tem?

Ela chegou a Nova York vinda da Europa de veleiro pois as viagens de avião geram muita poluição. Pode parece forçado, mas há 10 anos, quando fui escalar os vulcões do Equador, conheci um guia de montanha suíço que morava em Quito e que, apesar da boa condição econômica e da facilidade que um carro próprio poderia oferecer a ele e a sua família, se recusava a comprar um. Justificava dizendo que anualmente viajava com os filhos e esposa para a Suíça de avião. Ou seja, já preenchia toda sua cota aceitável de emissão de carbono e, numa sociedade sustentável, não lhe restava direito para desfrutar de um veículo particular e assim só andava de ônibus. Exagero? Não para Greta e outros muitos jovens e adolescentes espalhados pelos cinco continentes.

Esse tipo de comportamento me faz pensar cada vez mais em nosso estágio evolutivo. Os sinais mostram-se claros que estamos num final de ciclo, ou seja, o modelo capitalista tal qual está aí vem se exaurindo com o esgotamento dos recursos naturais, a mudança do clima para pior e o fracasso em resolver os problemas de desigualdade social. O capitalismo, ao contrário do que vociferam por aí, foi o sistema menos ruim que o ser humano conseguiu construir e promover nos últimos 500 anos para vivermos em sociedade de massa. Graças a ele temos muitas democracias, pessoas vivendo até os 100 anos e países com bons níveis de segurança, educação e saúde. O problema é que a maioria da população que cresce sem parar ficou de fora desse bem-estar e a Terra vai se transformando num lugar mais quente, com mais catástrofes naturais, menos florestas, risco de elevação do nível dos oceanos e mais animais extintos.

Greta e seu movimento acham que isso ainda pode mudar, mas sem mais delongas. Voltar ao feudalismo ou ao Império Romano não é uma opção, nem tão pouco apostar  no socialismo dos livros, atrativo na teoria mas com exemplos desastrosos na prática, como atestam Venezuela, Camboja e a cortina de ferro soviética. O capitalismo, sistema econômico e social baseado na propriedade privada, acumulação de capital, propriedade privada, lucro, acúmulo de riquezas e trabalho assalariado, precisa evoluir e ganhar um novo propósito.

Que tal, com o lucro, acumular pessoas retiradas da miséria? Ou árvores mantidas de pé? Ou crianças pobres educadas em boas escolas? No ranking da Forbes, por exemplo, uma pessoa seria considerada mais rica não apenas pelo número de imóveis, empresas, carros de luxo, aplicações financeiras e ações que possuísse, mas também pelo número de cidadãos  que conseguisse fazer melhorar de vida, ou áreas públicas que tivesse ajudado a recuperar.

A Apple não precisaria lançar um Iphone novo por ano e o consumo ganharia um status mais sustentável, com melhor aproveitamento do que já existe. O capitalismo é pródigo em criar novas formas de trocas e negócios, então que tal remunerar adequadamente a sustentabilidade? Andou de ônibus, ganha pontos; pegou o carro sozinho, perde pontos. Cada um teria sua própria conta de emissão de carbono e um aplicativo remuneraria ou taxaria nossas ações de forma voluntária. Chegou a hora de mudar o conceito de crescimento econômico e de se medir o PIB, e isso acontecerá quando exemplos individuais como o da garota sueca e o do guia suíço se multiplicarem mundo afora.

Espero que Trump e Bolsonaro, que ainda quer ver nossos índios andando de camionete 4×4 a diesel em imensas plantações de soja ou áreas de mineração dentro das reservas, sejam representantes de uma era já nos seus estertores. Mas para que isso aconteça Greta e seus colegas teens vão precisar fazer muito mais barulho. E, ao apagarem mais algumas velinhas e ingressarem no mercado de trabalho, não esquecerem seus valores em troca do glamour capitalista tradicional. Pelo que senti assistindo ao depoimento da Greta, ela não abrirá mão de seus princípios. Melhor para o planeta, melhor para nosso futuro.

Gustavo Junqueira / Jornalista

 

 

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