De olhos bem atentos contra a corrupção

A Lava Jata vem aos poucos sendo enfraquecida. Os vazamentos trazidos pelo site The Intercept minaram a imagem da operação ao escancarar métodos e diálogos do ex-juiz Sergio Moro e dos procuradores da força-tarefa no mínimo discutíveis. O material trazido a público, longe de inocentar Lula & cia, deu a eles e àqueles que ainda tentam escapar das garras da Justiça por seus malfeitos latentes a oportunidade de reagir. E o STF não perdeu tempo, encontrou uma firula jurídica relativa ao direito de defesa de delatados e ainda ameaça nocautear a legalidade da prisão em segunda instância. A Lava Jato ainda deu algum sinal de vida mandando para a cadeia na semana que passou servidores da Receita Federal que extorquiam operadores investigados pela operação, mas irá resistir?

Claro que excessos de qualquer parte, principalmente de instituições de poder, precisam ser combatidos em nome do Estado de Direito. Mas usar desta prerrogativa para mais uma vez livrar de punição os malfeitores de sempre não cai bem e soa como um passo atrás. Tudo indica, por exemplo, que o Ministério Público do Rio de Janeiro passou da linha na investigação do senador Flavio Bolsonaro e suas relações com a milícia, mas interromper o processo em andamento com tantas evidências de conhecimento público, como determinou o presidente do STF Dias Toffoli, é um tapa na cara do bom senso. E o Congresso, por sua vez, não se envergonhou em amenizar regras eleitorais e condutas na prestação de contas de campanhas, foco central da corrupção na política.

Por isso, em nível nacional, vivemos um momento meio desalentador nessa seara da ética pública. Assistir a telejornais muitas vezes é um convite a pensamentos negativos e desejos subterrâneos, do tipo “por que o pateta do Janot não cumpriu o que ameaçou ao invés de revelar o que não fez”. Ou, ao ver matéria sobre as manifestações em Hong Kong, ansiar que turbas incontroláveis aqui no Brasil invadissem o STF e o Parlamento e colocassem abaixo tudo o que encontrassem dentro. Passado o momento de fúria, a temperança ensina que o melhor caminho é enxergar a parte cheia do copo e os caminhos a serem arduamente construídos.

Finalmente aprovamos (ou quase) a Reforma da Previdência, cada vez mais desidratada, mas ainda assim uma esperança de solvência, investimentos e mais oportunidades de trabalho no futuro. E aqui na base, nas cidades, onde vivemos, ainda há sim esperança abaixo de tanto calorão. Nas sombras da Av. Nove de Julho os domingos prometem ser, uma vez ao mês, mais alegres, culturais e integrativos. Garantir a cidadania aqui para exigir o mesmo de Brasília que, ao final, nos representa como país.

Em Ribeirão Preto, pude acompanhar recentemente o Fórum Municipal de Transparência que discutiu e trouxe bons exemplos de mudança após a Operação Sevandija. O prefeito Duarte Nogueira elencou avanços em sua gestão no combate à corrupção e no saneamento das contas do município, se vangloriando que sua administração até o momento não foi acusada de qualquer desvio de conduta e que já conseguiu ter o primeiro ano de suas contas devidamente aprovado.

Lincoln Fernandes, presidente da Câmara, também fez uma apresentação minuciosa de medidas implantadas para dar maior clareza e visibilidade aos gastos da Casa e dos vereadores. Hoje, por um portal, é possível acompanhar melhor como nosso dinheiro está sendo usado por lá e por isso a Câmara foi avaliada como uma das mais transparentes do estado de São Paulo. Mas essa evolução só aconteceu aqui em razão da Sevandija e da pressão da sociedade, que precisa aumentar. Mérito para quem acredita nessa causa e, através de diversas entidades locais e seu Comitê de Transparência formado esse ano, se mobiliza para que a Prefeitura efetive um Plano e uma Comissão de Transparência em Ribeirão Preto, garantindo assim mais vigilância e responsabilidade com a coisa pública.

O presidente do Comitê, o jovem estudante Victor Jorge (é sempre bom ver sangue novo assumindo antigas bandeiras) afirmou na abertura do evento que a população está mudando e exigindo maior controle dos gastos públicos. Esperemos que assim seja! Somente de olhos bem abertos e na forma de uma política de transparência instituída, praticada e verificada, conseguiremos aprimorar o combate à corrupção com eficiência e perenidade. Aqui e em muitas outras cidades, onde batalhas semelhantes estão em curso, botando mais pressão em nossos representantes em Brasília.

Gustavo Junqueira / Jornalista

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