Protestos

Expressão coletiva de insubmissão e insubordinação contra algo ou alguém, rebelião, agitação, revolução, conflito, violência, revolta, quebra-quebra, enfrentamento e por aí vai. O ser humano, historicamente, quando acuado, oprimido ou injustiçado, se agrupa, grita, marcha, conclama, reivindica e ataca. As causas são muitas, mas hoje giram em torno de liberdade, desigualdade, corrupção e meio ambiente. A ordem, ou desordem, é protestar! De forma espontânea ou planejada, com convicção ou oportunismo, pacificamente ou com pedras, com frieza ou raiva, mas invariavelmente contra a lei e governos.

Hong Kong

Joshua Wong, 22 anos, dorme em lugares diferentes ao longo da semana. Identificado como um dos líderes da revolta dos guarda-chuvas, chegou a ser preso por alguns meses. Solto, não abre mão da liberdade e do direito de protestar. Hoje as manifestações acontecem novamente no Parque Tamar, próximo ao Conselho Legislativo Local. Não há mais recuo, a líder títere Carrie Lam deve renunciar e os habitantes de Hong Kong precisam conquistar o direito de escolher seus governantes. A marcha começa pacífica, mas logo a polícia fecha o cerco. Empurrões, pedradas, gás lacrimogênio e correria. Wong e outros estudantes, de mãos dadas e máscaras, enfrentam os agressores pró-Pequim, mas logo se dispersam. Amanhã é um novo dia em nome da liberdade, da luta, da esperança. Até quando? Até o fim ou até a China resolver agir com sua mão pesada e brutal …

Barcelona

Martina, 27 anos, quer a independência da Catalunha, acredita na viabilidade da autonomia da região e não quer mais se subordinar ao governo de Madri. Ela e alguns amigos vão às ruas novamente para protestar contra a condenação e prisão dos líderes do movimento que em 2017 levou às últimas consequências a tentativa de se separar da Espanha. As últimas 72 horas foram de pura agitação com barricadas e confrontos com a polícia e com grupos de ultradireita e contrários à independência. Inspirada em Caridad Mercader, agitadora profissional nos anos 30 e mãe do assassino de Trotsky, ela, Martina, se junta a mais de 200 mil pessoas pelas ruas da capital. Gritam palavras de ordem e lançam coquetéis molotov contra a polícia. O aeroporto é fechado, carros são incendiados e lojas saqueadas. No confronto, Martina é ferida por um estilhaço e, mesmo sangrando, segue bradando pela autonomia da Catalunha.

Quito

Jamirez, 44 anos, está agitado no cortejo que leva o corpo de Inocencio Tucumbi, dirigente da Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador morto pela polícia durantes as manifestações. Jamirez, que trabalha com uma van, e grande parte da população não aceitam, entre outras medidas, o aumento exorbitante dos combustíveis gerado pelo fim dos subsídios anunciados pelo governo do presidente Lenin Moreno. Os ajustes da economia botam fogo na insatisfação popular. Ao deixarem o Parque del Arbolito em direção à Casa de Cultura de Quito, onde policiais e jornalistas são mantidos como reféns, Jamirez e seus companheiros esbravejam contra o aumento do custo de vida. O presidente Moreno fugiu da capital e se recusa a revogar o pacote de medidas de ajuste negociados com o FMI. Há centenas de presos e feridos nos embates, alguns mortos e dezenas de profissionais da imprensa atacados.

Santiago

Juan, 23 anos, estudante de sociologia, está em meio à multidão na Plaza Itália em Santiago. Junto com alguns colegas, entoa o slogan “Oh oh oh, o Chile acordou”, mas evita a proximidade com policiais, já que deve estar visado por participar ativamente, nos últimos dias, da destruição de dezenas de estações de metrô. Suas convicções ideológicas de esquerda o convencem que o liberalismo do presidente Piñera é cruel e precisa ser atacado frontalmente. Já são mais de 10 mortos nos conflitos e o toque de recolher implantado, algo que não ocorria desde a ditadura de Pinochet, inibe a circulação de pessoas à noite e expressa a magnitude dos protestos. Juan encara a violência como narrativa legítima para demonstrar ao Palácio de La Moneda que a fúria não foi causada pelo aumento de 30 pesos na passagem de metrô, mas sim por uma política insensível ao aumento do custo de vida e concentradora de renda.

Salvador

Severina, 45 anos, pescadora, emerge como uma das cabeças do movimento que eclodiu na última semana na capital baiana. Trabalhadores e sindicatos ligados à pesca se reuniram para protestar contra os prejuízos causados pelas manchas de óleo que paralisam atividades em toda a costa nordestina e esvaziam o turismo deixando milhares de pessoas desamparadas. Aos gritos no Pelourinho, Severina lidera um grupo que bloqueia ruas e exige algum tipo de reparação e responsabilização. O crime organizado aproveita a oportunidade e inicia um levante que já incendiou 200 ônibus e promoveu o saque e destruição de dezenas de estabelecimentos. O ministro da Justiça, Sergio Moro, envia uma força-tarefa para conter a violência, mas Salvador se transforma numa praça de guerra com lixo acumulado, barricadas, transporte público paralisado e o Elevador Lacerda vandalizado. Nas outras capitais nordestinas os tumultos se iniciam …

Epílogo

Wong, Martina, Jamirez, Juan e Severina. Gente que sonha, gente que se revolta. Gente que erra, exagera, sofre, acredita e que, a qualquer momento, se joga pra valer. Gente como a gente …

PS: O texto, baseado em fatos reais, é ficcional

Gustavo Junqueira / Jornalista

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