O gesto permanente ou a história se repete em imagens

“A Liberdade guiando o povo” é uma pintura do francês Eugène Delacroix em comemoração à Revolução de Julho de 1830, que marca a queda de Carlo X. Pode-se dizer que o quadro entrou para a história como uma espécie de ícone de todas as revoluções. Com o mundo povoado por levantes, manifestações, revoltas e sublevações, não é raro ver estampada em jornais e redes sociais uma foto que viraliza, virá símbolo de determinada convulsão social e carrega nela ecos do quadro de Delacroix.

Em 22 outubro de 2018, a foto de um jovem empunhando a bandeira palestina e arremessando pedras contra soldados israelenses em Gaza, registrada pelo fotógrafo Mustafa Hassouma, da agência Anadolu, chamou a atenção pela semelhança com a pintura “A Liberdade guiando o povo”. O gesto do jovem é muito parecido com o da mulher do quadro, que segura em uma das mãos a bandeira tricolor francesa e na outra uma baioneta.

Passado um ano, no dia 25 de outubro, a atriz Su Hidalgo registrou na Plaza Itália, em Santiago, no Chile, a imagem que ganhou o mundo como síntese dos revoltosos chilenos. Manifestantes tomam a praça e se apinham no entorno e em cima de um monumento, portando bandeiras do Chile e uma especial, que representa o povo indígena Mapuche. Ao fundo da foto, um céu avermelhado e esfumaçado, lembrando muito o céu da pintura de Delacroix.

Ao colocar essas imagens lado a lado, lembro-me do célebre pensamento formulado por Karl Marx em 1852, que abre o texto “O 18 de Brumário de Luis Bonaparte”. Marx escreve: “Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”.

Parafraseando Marx, gosto de pensar que as imagens se repetem na história. Independentemente de soarem como tragédia ou farsa, há gestos que se perpetuam como símbolos e são capturados sejam nos registros amadores de uma atriz e manifestante ou de um fotógrafo profissional cobrindo um conflito.

O filósofo francês contemporâneo e historiador da arte Georges Didi-Huberman trouxe para o Brasil, em outubro de 2017, a exposição “Levantes”, uma mostra interdisciplinar, realizada no Sesc Pinheiros, que reunia fotos, vídeos e outras obras de arte que tratavam de revoltas, gestos de insurgência e levantes pelo mundo. Veja aqui o catálogo da exposição: https://issuu.com/sescpinheiros/docs/levantes_completo_issu

Didi-Huberman parece buscar nas inúmeras imagens que acompanham as revoluções esses gestos que se comunicam e trazem neles essa memória da história. Ele diz que os gestos de levante são incessantemente retomados, são como pulsões da liberdade contra a opressão. Estão num quadro de Goya, nas representações das revoltas filmadas pelo cineasta Eisenstein, e também nas fotos do conflito em Gaza em 2018 e nas manifestações do Chile em 2019. E arriscaria dizer que estão infiltrados no nosso olhar e no de quem registra esses momentos.

Rodrigo Pinto / Jornalista e sócio da Conceito Comunicação

palestino 

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