Esquerda, direita, centro e o futuro

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Alguns ideais da esquerda sempre me atraíram a ponto de me considerar alguém quase de alma vermelha. A obsessão pela erradicação da pobreza e miséria, a luta histórica contra as desigualdades, a utopia de construir um mundo mais justo e com mais oportunidades para todos. No campo do comportamento, algumas bandeiras como a descriminalização do porte ou uso de entorpecentes e da interrupção da gravidez me parecem bem mais coerentes e razoáveis para minimizar problemas agudos da sociedade, na qual milhões de pessoas são empurradas ao crime de forma desnecessária sem que o número de abortos e o consumo de drogas diminuam de fato.

Por outro lado, valores da direita também me iluminaram o caminho ao longo dos anos. Por exemplo, a devoção à liberdade individual, aquela que nos permite escolher o que fazer sem a tutela de um grupo ou da mão grande do Estado. E também a crença de que um Estado grande demais é inoperante e devastador para o espírito empreendedor e para o pleno desenvolvimento de um país. E ainda a forte ligação com o liberalismo econômico, que preconiza contas públicas ajustadas com o objetivo de criar um ambiente econômico mais atrativo a investimentos e trocas que, por sua vez, gerarão mais empregos e melhores condições de vida para a população.

Mas dos dois campos ideológicos emergem características que me afugentam. O apego incondicional a dogmas é uma delas, isto é, a incapacidade de refletir por uma régua diferente. Em algumas ocasiões, por mais que bons argumentos, dados sólidos e informações de qualidade apontem numa direção quase transparente, tanto à esquerda quanto à direita há enorme dificuldade em entender ou aceitar um contraditório bem colocado. Sempre existirá um chavão na ponta de língua a rebater a lógica dos fatos. E a dificuldade de fazer mea culpa, de reconhecer erros (e quem não os comete?) para avançar num entendimento, representa outro empecilho para que a adesão a qualquer dos lados opostos seja feita de forma incondicional.

Observo o episódio de soltura de Lula e seus pronunciamentos públicos. Tenho a impressão que não aprendeu nada nos mais de 500 dias atrás das grades. Apoio de 30% da população ele já tem, mas para que investir no enfrentamento com os outros 70%? De que maneira ele pretende unir o país se continua pregando apenas para convertidos, que fecham os olhos sem o menor constrangimento aos crimes promovidos pelo ex-presidente e se apegam somente aos desatinos da Lava Jato? Não vi nenhum aceno ao centro, para atrair gente que não aguenta mais as loucuras, declarações e caneladas de Bolsonaro. Lula, pelo contrário, quer concentrar seu combate ao ar livre na política econômica de Paulo Guedes. Mas peraí! Praticamente a única área do governo que está fazendo algo digno de esperança para nos tirar da estagnação e é justamente ela que receberá o combate ostensivo da esquerda?

Fosse eu Lula, tentaria algo diferente e mais conciliador. Por exemplo, assumir alguns de seus deslizes e se desculpar por eles diante de todo o Brasil. Um gesto de grandeza e conciliação para virar uma página e começar outra. Alguém que ficou preso pode sim ter uma nova chance, ainda mais com os erros e exageros da Lava Jato. O governo Bolsonaro é tão pródigo em pontos frágeis que não seria difícil escolher alguns deles para enfrentar politicamente. E as propostas de Guedes seriam assim tão tenebrosas que não mereceriam do PT ou da esquerda uma lupa para serem analisadas e melhoradas? Onde houver a frieza social da direita, poderia haver o empenho para mudar artigos que humanizem um pouco mais as PECs sem destruir o benefício da recuperação das contas públicas. Tenho convicção que desta maneira uma fatia do eleitorado avessa ao petismo reconsideraria votar novamente na esquerda.

Já o nosso presidente continua se mostrando cada vez mais irredutível na ponta direita. Seguindo as indicações de seu Guru de Carvalho, alardeia o medo comunista, insiste em patéticas lives aos seus 30% de convertidos, se gaba de não fazer política tradicional, briga com seu (ex) partido e continua incapaz de adotar uma postura mais moderada e apropriada ao cargo de mandatário da Nação. Enquanto a esquerda se mantiver grudada no velho e desgastado Lula de sempre, melhor para Bolsonaro, que continuará a ser uma forte opção aos que não querem o regresso de Gleisi & Cia. Mais uma vez, me arriscaria a palpitar. Ei, Bolsonaro, você não conseguiria também fazer uma autocrítica, assumir que exagerou ao repetir por aí que o major Brilhante Ustra é o seu herói, que houve sim uma ditadura militar no Brasil e que em áreas como Meio Ambiente, Educação e Cultura podemos ser mais conciliadores com as respectivas comunidades que militam em tais segmentos? Não interessa aumentar seu eleitorado ao centro?

Ser enquadrado em rótulos acaba se tornando algo meio reducionista: esquerda ou direita? Apoiar, ao mesmo tempo, causas dos dois espectros significa estar ao centro? Boas questões para tempos difíceis e conflituosos. As respostas podem estar além do quadrado, por isso faz bem ler e ouvir o pensador israelense Yuval Harari, que está mais preocupado em como resolver dilemas relacionados à inteligência artificial e ao perigo de ditaduras digitais. Segundo ele, nunca a humanidade precisou tanto de filósofos que interpretem para onde estamos indo e qual será o sentido da vida nesse século XXI que avança em constante e rápida transformação. Precisaremos mais do que conceitos de esquerda e direita para lidar com os desafios que já se encontram à nossa frente.

Gustavo Junqueira / Jornalista

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