Algumas questões sobre o racismo

Tivemos uma semana agitada em relação às discussões sobre racismo, principalmente em razão do vandalismo cometido pelo deputado federal Coronel Tadeu (PSL) contra uma charge do cartunista Carlos Latuf que fazia parte de uma exposição na Câmara dos Deputados alusiva ao Dia da Consciência Negra. Intitulada “O genocídio da população negra”, o desenho mostrava um jovem negro algemado caído no chão ao lado de um policial com revólver. O parlamentar considerou a obra injusta e abusiva contra a polícia e não achou nada melhor para mostrar sua insatisfação do que destruir a charge.
O Coronel Tadeu tem todo o direito de protestar, mas não de fazer uso da violência investindo contra a arte e o direito da população negra de chamar a atenção para estatísticas reveladoras. Por exemplo, a de que quase 75% das mortes violentas no país têm como vítimas os negros. Outro episódio de intolerância chamou a atenção na semana, dessa vez na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, na Glória, no Rio de Janeiro. Um grupo de fiéis conservadores tentou impedir a realização de uma cerimônia que celebraria a diversidade quando soube que a missa teria danças africanas no altar. A polícia precisou ser chamada para conter a confusão.
Os dois exemplos mostram como as questões raciais continuam efervescentes em nossa sociedade e ainda bem distantes de um ponto de equilíbrio. Recentemente conheci uma pessoa negra que milita no movimento que denuncia o racismo ainda tão presente e que se manifesta de formas tão perversas. Tomando uma cerveja num bar com essa pessoa, que é bem-sucedida profissionalmente, perguntei-lhe com que frequência sentia na pele manifestações constrangedoras relacionadas ao seu biotipo. Mensalmente? Todas as semanas? “Não, todos os dias”, respondeu ela. E completou: “Veja esse caso que ocorreu há menos de uma hora. Como estava vindo beber num bar, chamei um Uber. Quando o motorista ficou sabendo o endereço, virou-se e indagou se eu trabalhava lá”.
De fato, são perguntas como essa, aparentemente ingênuas, que carregam um racismo considerado leve, mas que no fundo chicoteia a dignidade de uma população numerosa. Em outras palavras, quer dizer que um negro que vai a um bar de classe média está indo trabalhar como garçom, e não se sentar e se divertir como um branco? E aí, de fato, quando olho ao lado nos lugares que frequento, enxergo poucos negros e os que vejo estão trabalhando em funções que normalmente servem aos de pele mais clara. Algo parece estar errado se considerarmos que mais da metade da população brasileira é composta por negros e pardos.
Peço licença aqui aos que me consideram sem direito a um lugar de fala, ou seja, um branco sem legitimidade para analisar um tema que somente os negros vivenciam e poderiam se manifestar. Mas vamos lá, vou me arriscar. Primeiramente é bom saber que uma recente estatística divulgada confirma que os negros e pardos já são pouco mais de 50% dos estudantes das universidades públicas, ou seja, as cotas ajudaram a diminuir um fosso que existia no ensino público superior até há poucos anos, no qual brancos de classes sociais mais altas e que estudavam em bons colégios particulares tomavam todas as vagas de pobres e negros que vinham de escolas públicas sofríveis do Ensino Fundamental e Médio. A universidade ficou, assim, mais com a cara do Brasil.
O próximo passo seria desatar o nó econômico que coloca a população negra sempre entre os mais pobres ocupando vagas profissionais desvalorizadas. Precisamos de mais afrobrasileiros na diretoria e no conselho das empresas, ou como empreendedores à frente de negócios de sucesso, e mais médicos, advogados, engenheiros, administradores e cientistas de pele escura. Se faltam oportunidades para isso, vamos criá-las! Se acreditamos de fato que a diversidade é benéfica e saudável para a sociedade, vamos viabilizá-la! O objetivo não seria criar cotas, mas incentivos que podem ser tanto fiscais quanto de valorização pelo próprio mercado, que premiaria empresas que se esforçassem para fazer do ambiente corporativo um local mais diverso e não menos meritocrático.
O racismo é uma chaga histórica e tem raízes profundas. Somos um país com um passado sombrio de cerca de três séculos de tráfego de pessoas e escravidão. É uma conta pesada e que os últimos 130 anos desde a Lei Áurea nem de longe conseguiram reparar. Quando pensamos nas últimas décadas verificamos que houve sim avanços importantes, mas muito há de ser feito para que deputados não mais destruam charges, carolas não impeçam cerimônias religiosas e negros não ouçam perguntas desnecessárias ou comentários impertinentes. Martin Luther King tinha um sonho, tão desafiador quanto simples, e um dia, no futuro, com muita luta de uns e bom senso da maioria, ele poderá ser realidade.
Em 2005 estive na Tanzânia escalando o Kilimanjaro, a maior montanha da África com 5.890 metros de altitude. Apesar da sensação de alcançar o cume ter sido fantástica, guardo como maior recordação dessa viagem uma noite de alegre convívio com os locais de Arusha, cidade próxima à base do Kilimanjaro. No hotel, lotado de europeus brancos sendo servidos por empregados negros, fui recomendado a não sair à noite por questões de segurança. Resolvi desafiar essa orientação ficando amigo do motorista do veículo que me levaria a um safári turístico. Juntos, saímos a pé por Arusha visitando incríveis botecos em ruas perdidas de terra. Único branco naquele pedaço de mundo, fui muito bem tratado e passei horas respondendo perguntas sobre o Brasil, nossa música, futebol e cultura, bem como aprendendo o que podia sobre a Tanzânia. Aquela sim foi uma jornada de interação social e conhecimento de tirar o fôlego! Asante sana, rafiki (muito obrigado, amigo, na língua swahili)!

Gustavo Junqueira – Jornalista.

Imagem: freepik. 

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