A conquista do Plata 

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Volto a escrever nesse espaço após um interregno de duas semanas muito bem vividas em alto estilo. Em Mendoza, na Argentina, houve, claro, devoção ao Deus Baco, mas o reserva especial estava mais acima. A praticamente 6 mil metros de altitude, rezei missa própria no cume do Cerro Plata, um gigante pedregoso, imponente e magnético, ora nevado e convidativo, ora mal-humorado, temível e assolado por ventos de 100 km/h. Para chegar lá, um ritual de seis dias montanha acima, subindo aos poucos para uma lenta e necessária aclimatação ao déficit de oxigênio, acampando em terrenos quase lunares e sonhando com a difícil conquista daquele ponto extremo do globo. 

 

A expedição, composta por seis integrantes entre brasileiros e argentinos, passou pelo Refúgio San Bernardo, a 2.800 metros de altitude, e pelos acampamentos de Veguitas Superior (3.460 metros) e Salto Inferior (4.280 metros). Deste último, aconteceu o chamado ataque ao cume na madrugada do último dia 5 de dezembro, uma exaustiva e arrastada ascensão de 1.700 metros verticais (como sair de Ubatuba e chegar a Campos do Jordão) e cerca de 8 km de distância a passos trôpegos. Por volta do meio dia, estávamos lá no topo, radiantes, brindados com um dia ensolarado e magnífico, visão 360 graus com Mendoza lá embaixo e distante, e nós sendo observados bem de perto, algo como 50 km de distância, pelo Sentinela de Pedra – ele mesmo, o Aconcágua, a maior montanha das Américas, com 6.960 metros de altura, cujo cume eu havia atingido em 2002. Divino! 

 

Volta e meia me perguntam qual é a sensação e o sentido de escalar esses colossos. Tenho dificuldade em verbalizar uma resposta, mas sempre me recordo das palavras de George Mallory, o lendário alpinista inglês morto em 1924 ao tentar ser o primeiro homem a pôr os pés no topo do Everest, o mais alto pedaço de terra do mundo a 8.848 metros de altitude. Quando lhe perguntaram certa vez por que queria subir a montanha, respondeu: “Porque ela está lá”. Bem, além dessa razão avassaladora, acrescento outras menos filosóficas mas também reveladoras 

 

Em que lugar conseguimos ficar uma semana desconectados da internet fazendo higiene mental na companhia de poucos e valentes em meio a uma natureza arrebatadora e empreendendo um esforço físico que entorpece a alma? Na montanha! Em que lugar possuímos dois objetivos tão claros e definidos – alcançar o topo e voltar vivo – e que nos demandam planejamento minucioso, paciência com o clima e capacidade de aclimatação ao ar rarefeito para atingir o sucesso e desfrutá-lo de modo intenso? Na montanha! Em qual lugar valorizamos cada molécula de oxigênio que absorvemos, que matamos a sede com volúpia, que priorizamos cada grama de peso que levamos na mochila e que nos emocionamos apenas por chegarmos no alto? Na montanha … 

 

Existe um desconforto visível nessa atividade pulsante e também de busca espiritual e de um propósito existencial. Ficamos cansados e muitos dias sem tomar banho. Ir ao “banheiro” ao relento é quase uma operação de logística levando-se em consideração o frio abaixo de zero e a necessidade de ser sustentável. E dormir em barracas pequenas e desajeitadas, onde podemos ficar confinados 12 horas por dia dependendo do humor do clima, coloca pressão e ansiedade no abatido montanhista muitas vezes com dor de cabeça e falta de apetite decorrentes da adaptação do organismo à menor oferta de ar. Estas dificuldades, no entanto, são análogas a outras milhares que enfrentamos na vida, ou seja, passar o perrengue da montanha nos fortalece na superação das agruras do cotidiano. “La vida es dura, amigo”, repete sempre o colega Luiz Guapito, companheiro de tantas jornadas trilha acima e abaixo. 

 

Vale reforçar ainda outra premiação de valor inestimável para quem se dedica ao montanhismo. O retorno à civilização vem acompanhado de inúmeros prazeres aos quais normalmente passamos batido. O primeiro banho com água quente é também de deleite, a primeira cerveja um néctar aromatizado, dorme-se na cama como um belo adormecido e respira-se com felicidade diante da oferta generosa de oxigênio. Outro ponto em que a montanha nos refina é na capacidade de organização pessoal. A cada acampamento arrumamos as mochilas com dezenas de itens que temos a obrigação de saber localizar no momento necessário. Nas barracas, espalhamos tudo ao alcance das mãos desde lanternas, pilhas, óculos, meias, remédios, alimentos, roupas limpas e sujas, casacos, saco de dormir, equipamentos, livro, luvas, gorros, protetor labial, creme de sol, higiene pessoal e por aí vai. Haja senso prático e memória! 

 

Passamos muito tempo sozinhos, o que nos permite refletir bastante sobre nós, a vida e o mundo. Ao mesmo tempo, ficamos focados na expedição e seus desafios: o que comer e como preparar, a previsão do tempo, a progressão da aclimatação, o aqui e agora, a esperança de um clima favorável, a gratidão pela experiência proporcionada. Como obter respostas conclusivas nem sempre é possível, resta-nos elaborar melhor as perguntas. Por que um agnóstico se motiva a subir montanhas? Seria para ficar mais perto de Deus? Por que, se Ele não existe, insiste em se manifestar pela grandeza e beleza das paisagens ao redor? Quem, senão Ele, poderia ter arquitetado e construído tamanhas e monumentais visões? É com essas e outras questões que o tempo vai passando enquanto vagarosamente caminhamos rumo ao teto, ao desconhecido e para dentro de nós mesmos. 

 

Alcançar o topo do Plata foi sofrido e levou cerca de 8 horas no ataque final do dia 05 de dezembro, sexto dia da nossa expedição e única janela de bom tempo em que a montanha e seu instável clima permitiram que seres humanos lá chegassem naquela semana de inesquecíveis emoções. Não podíamos deixar barato! Em sinal de respeito e agradecimento, e não de desleixo, fizemos nosso ritual de dancinha do cume, onde de forma quase tribal celebramos a conquista. Sofrimento e empenho transformados em diversão para, em seguida, serem canalizados para uma longa descida em segurança. Chegamos de volta às barracas, e no dia seguinte ao refúgio, e depois à Mendoza, felizes e cansados. Mas cientes de que às montanhas regressaremos, porque elas permanecem lá …

 

Gustavo Junqueira / Jornalista 

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