Escravidão

O tema da escravidão voltou a permear meus pensamentos com a leitura do novo livro do jornalista e premiado escritor Laurentino Gomes (Escravidão), na verdade o primeiro de uma série de três que versa sobre o mesmo assunto. Incrível como a prática foi a regra, e não a exceção, na aventura humana no planeta. Desde que nos organizamos em sociedade, tivemos essa infame ideia de tornar nosso semelhante um cativo para trabalhos forçados, status, sacrifícios, segurança ou poder, sempre à base de medo, violência e crueldade. Sob o olhar do século XXI, trata-se de uma verdadeira chaga na história do desenvolvimento, algo incômodo e vergonhoso para nossa espécie.

Claro que analisar o passado com a régua da atualidade não funciona. Escravizar foi, por mais de 5 mil anos, um processo considerado normal e cultural – os mais fortes e vencedores tinham o direito e os meios de subjugar os mais fracos e derrotados. Assim ocorreu no Egito antigo, na Grécia, no Império Romano, na China e, principalmente na África, continente que recebe especial atenção da obra de Laurentino. Lá já havia um sistema milenar de compra, venda e transporte de cativos quando os portugueses chegaram margeando a costa no século XV. Juntando a oferta de escravos com a necessidade de colonizar e explorar a América recém-descoberta, iniciou-se o maior êxodo forçado de pessoas de todos os tempos por mais de três séculos, num total aproximado de 12,5 milhões de escravos embarcados.

Nós, brasileiros, pouco sabemos da África, o berço da humanidade com uma vasta e diversificada cultura. Os europeus pouco adentraram naquele continente até o século XIX, ou seja, compravam os escravos em feitorias e mercados no litoral capturados, negociados e entregues pelos próprios africanos, que mantiveram mais de 15 milhões de cativos em suas próprias terras no mesmo período em que um contingente um pouco menor era “exportado” para a América.

O Brasil pós-descoberta lusitana tem no seu DNA a escravidão. Recebeu cerca de 5 milhões de cativos negros do século XVI a meados do século XIX. A experiência de escravização dos índios não foi muito produtiva, pouco afeitos ao trabalho difícil na lavoura e mineração, enquanto os africanos já tinham experiência nessas atividades e em outras, como pastoreio. Nossa economia se baseou basicamente no suor do trabalho cativo do negro, sedimentado no Brasil colônia e depois no império. Podemos assim caracterizar esses mais de 300 anos como uma tragédia humanitária que deixou reflexos negativos em nossa sociedade e uma dívida social ainda a ser resgatada.

Embora uma pequena corrente argumente que os próprios africanos participavam ativamente do negócio escravidão e que por isso não haveria necessidade de reparação, o entendimento predominante hoje no Brasil é que existe sim a obrigação de empreender esforços para diminuir a distância entre brancos e negros. Estes últimos, juntamente com os pardos, somam 54% da população, mas quando analisamos estatísticas sobre riqueza, pobreza, violência, Educação e mercado de trabalho no país, esse grupo leva sempre a pior de maneira escandalosa. Se quisermos mais justiça e menos desigualdade, muito há de ser feito além da atual e consideravelmente bem-sucedida política de cotas nas universidades federais.

Mergulhar nas páginas de Laurentino, assim como foi nos livros 1808, 1822 e 1889, é um delicioso aprendizado de história e um convite à reflexão. Vale registrar que o texto do autor, em linguagem quase jornalística e no formato de uma grande reportagem, flui livre e solto, ao contrário das milhões de vítimas acorrentadas e presas descritas na obra. Algumas informações chegam a ser impactantes, como as de sacrifícios e de mortandade de seres humanos – 1,8 milhão teriam perecido somente nos navios negreiros. Outras são curiosas: o infante D. Henrique, tido como um patrono esclarecido das navegações, era antes de tudo um traficante de escravos.

Chegamos a nos sentir aliviados de viver no século XXI, época em que a escravidão nos moldes em que existiu desde tempos imemoriais representa algo execrável e uma página praticamente virada da história. Mas isso não significa que ela inexiste de certa maneira. Ainda temos aproximadamente 3 bilhões de habitantes na Terra que vivem em condições de pobreza alarmantes e que, em alguns aspectos, podem lembrar características da escravidão pela triste qualidade de vida e pela falta de opção para prosperar dessa enorme fatia da população mundial. E também há outras formas mais modernas de “cativeiro”, como a sensação de sermos escravos do sinal da internet, do aparelho celular ou das mídias sociais para existirmos plenamente.

Não podemos mudar o passado. A escravidão foi de fato um alicerce de construção da humanidade, mas felizmente subimos alguns degraus de civilidade e moralidade na convivência da espécie e nas relações econômicas. Que nos sirva de lição e conhecimento na construção e busca de novos modelos e propósitos. Um bom Natal a todos os leitores!

Gustavo Junqueira – Jornalista.

 

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