O velho Oriente Médio de sempre

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Nem bem os votos de um feliz ano novo com muita paz e saúde haviam sido desejados mundo afora, damos conta que um tal general Soleimani, do Irã, acabara de ser mandado pelos ares em Bagdá, como num jogo de videogame, por forças americanas. Nada ainda de 3ª Guerra Mundial, mas um real aperitivo de como se dá no tabuleiro do Oriente Médio o jogo de forças. Desde a Revolução Islâmica em 1979 na antiga Pérsia, que depôs o regime amigo do Ocidente do Xá Reza Pahlavi, americanos e iranianos disputam poder e influência na região que concentra o grosso do petróleo global com provocações, guerras, boicotes, alianças e ameaças.

Em 1980, tivemos a vergonhosa e fracassada tentativa de resgate (Operação Eagle Claw) dos reféns da embaixada do Estados Unidos em Teerã em que os helicópteros do Tio Sam caíram no deserto e melaram a reeleição do democrata humanista Jimmy Carter. E depois, ao longo daquela década, a guerra do Irã contra o Iraque comandado por um Saddan Hussein apoiado pelos Estados Unidos. O ditador iraquiano colocou em 1990 as manguinhas de fora invadindo o Kuwait, e gerou a Guerra do Golfo liderada pelo Bush pai. Mas quem apeou do poder o genocida bigodudo foi o Bush filho, em 2003, com a invasão do Iraque baseada em acusações falsas de existência de armas químicas naquele país.

Com esse histórico recente, ninguém poderia esperar muita tranquilidade no Oriente Médio. Foi de lá que saíram os terroristas do 11 de setembro, depois os Estados Unidos se complicaram para manter qualquer ordem no Iraque ocupado. E na última década, depois da Primavera Árabe, a Síria se convulsionou gerando êxodo e a barbárie explícita do Estado Islâmico. E tudo isso sem contar a questão Israel-Palestina, cada vez mais distante de uma solução consensual com o crescimento dos assentamentos judaicos em áreas da Cisjordânia e a pobreza e opressão na Faixa de Gaza. Estados Unidos e Irã estão metidos em todos esses conflitos, obviamente em lados contrários, sendo que o país dos aiatolás apoia a milícia Hezbollah no Líbano; o Hamas em Gaza; as milícias xiitas huthis no Iêmen; as milícias xiitas no Iraque, bem como o ditador Bashar al-Assad na Síria. Apenas um inimigo conseguiu fazer com que Estados Unidos e Irã lutassem do mesmo lado da trincheira: o sanguinário e sunita Estado Islâmico.

O general Qasem Soleimani, abatido no último dia 03 de janeiro por dois mísseis do tipo Hellfire disparados por um drone americano MQ-9 Reaper, era da Guarda Revolucionária Islâmica e, desde 1998, comandante da Força Quds — uma divisão especializada em ações fora do país e operações clandestinas. Dizem que depois do Aiatolá Khamenei, seria o homem mais poderoso do Irã. Estava na lista negra dos Estados Unidos já fazia tempo e sua provável participação na tentativa de invasão da embaixada americana em Bagdá no apagar das luzes de 2019 deve ter selado sua sorte e feito Trump autorizar que o botão do drone assassino fosse acionado na primeira oportunidade, e ela apareceu rapidamente.

Os Estados Unidos repetem assim uma estratégia semelhante à adotada por Israel, a de caçar implacavelmente assassinos de seus cidadãos. Quem assistiu ao filme Munique, de 2005 e dirigido por Steven Spielberg, acompanhou como um comando clandestino judeu assassinou em diferentes países alguns dos terroristas envolvidos no massacre de 11 atletas israelenses nas Olimpíadas de 1972. Os americanos se utilizam da mais avançada tecnologia para punir seus algozes, bem como de tropas de elite  muito bem treinadas e equipadas.

Além da eliminação de Soleimani, temos o famoso caso da execução de Osama Bin Laden, em maio de 2011, num esconderijo em Abbottabad, no Paquistão, a cargo de um pelotão que chegou ao local em helicópteros e entrou na fortaleza, na calada da noite e em poucos minutos, localizou e liquidou o mentor dos ataques do 11 de setembro. O filme “A hora mais escura”, de 2013, retrata como foi a operação. E, mais recentemente, em outubro passado, os Estados Unidos, também fazendo uso de seus esquadrões ranger, encurralaram no noroeste da Síria o extremista Abu Bakr al-Baghdadi, líder do Estado Islâmico, que se explodiu juntamente com três de seus filhos.

Isto tudo quer dizer que 2020 não começou assim tão diferente do que foi o mundo nas últimas décadas, principalmente no Oriente Médio. Com conflitos tão complexos e históricos, é difícil dizer quem está certo ou errado, apenas podemos aceitar que a geopolítica sempre foi e será complicada e violenta. Desta vez a temperatura subiu bastante, pois o Irã realmente tem algum poder militar para revidar e causar estragos, não diretamente aos Estados Unidos, mas ao planeta, mas até o momento só fez barbeiragem matando seus próprios cidadãos pisoteados no enterro de Soleimani ou no patético abate do Boeing ucraniano. Mas lembrando dos tempos de escola, desde moleque sabemos que não devemos nos meter com quem é sabidamente mais forte … ou a surra será certa.

Dois outros aspectos me chamaram a atenção na atual crise. A decisão de Trump de usar drones para eliminar desafetos pode ser um péssimo exemplo para todos nós. Como essa tecnologia está cada vez mais disponível e barata, temo que em alguns anos nas cidades, por exemplo, vizinhos incomodados com latidos utilizem geringonças voadoras guiadas remotamente para eliminar cachorros ruidosos e inoportunos. E, acompanhando as reações no Irã à morte de Soleimani, em nenhum momento ouvi a palavra “justiça” ser usada. Ao contrário, os iranianos só bradavam “vingança”, mostrando que o Código de Hamurabi, aquele do famoso “olho por olho, dente por dente”, escrito há 3.800 anos, continua valendo para os persas.

Somos de culturas diferentes e por isso nossas réguas de comportamento não valem para o outro, então o futuro continua como sempre esteve: imprevisível! Muitos mísseis ainda irão passar por baixo e por cima da ponte em 2020, mas pelo andar do drone e da pujança da economia americana, arrisco a dizer que Trump deve se reeleger no final do ano, e Khamenei continuará  à frente do regime dos aiatolás deixando a prometida vingança mais para a retórica do que para a prática.

Gustavo Junqueira – Jornalista. 

 

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