Não queria ser Regina

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A atriz Regina Duarte “noivou” com Bolsonaro e aceitou fazer um chamado período de testes para ver se realmente assume a Secretaria de Cultura do Governo Federal. Uma postura inusual, ou seja, quer experimentar para saber se gosta da função ou serve para ela. Este é o Brasil de Bolsonaro que vai, aos poucos, quebrando tradições e protocolos no jeito de fazer política e gestão pública.  Não invejo a posição da atriz e até entendo o receio dela em aceitar o desafio diante das pressões existentes, principalmente a do próprio governo que deseja adotar uma política cultural ideologizada e claramente contrária a bandeiras e ideais considerados de esquerda.

Quem assistiu à live do presidente na véspera da exoneração do ex-secretário Roberto Alvim, com a presença deste, viu um Bolsonaro muito à vontade com as propostas e comentários do admirador e imitador de Goebbels. Falou-se em “arte sadia”, valorização e culto de grandes personagens da nossa história (Quem seriam? Provavelmente religiosos e militares da colônia e do império) e tradições religiosas. No dia seguinte, ao ser alertado sobre o estapafúrdio pronunciamento de Alvim num vídeo com estética e frases nazistas, Bolsonaro minimizou inicialmente o caso como se fosse mais um plantado por esquerdistas e pela Globo, a ser empurrado com a barriga e respostas mal-educadas a jornalistas e que em nada daria.

Felizmente, com os presidentes da Câmara e do Senado pedindo a cabeça do sinistro diretor teatral, e assessores explicando a gravidade do assunto e os impactos do pronunciamento na comunidade judaica e no restante do planeta, é que caiu a ficha presidencial e veio a exoneração necessária. Ponto para as instituições e para a sociedade diante de tal disparate. Pois bem, na sequência, o nosso primeiro mandatário aparece na foto, todo sorridente, como se nada tivesse acontecido, ao lado de Regina Duarte, convidada a assumir o cargo e que teria carta branca para atuar na Secretaria de Cultura e ele, presidente, apenas o poder de veto.

A atriz, que tem uma história e imagem a zelar, manteria a equipe de Alvim, seus editais e o Fundo Nacional de Cultura nos moldes já anunciados? Já sabendo do jeito de ser do presidente, que considera a Cultura um território do olavismo, um bastião de defesa da moral e dos ditos bons costumes, e uma trincheira contra tudo o que é considerado de esquerda, Regina conseguiria implementar uma política digna e construtiva na secretaria? Difícil, né? Carlucho não iria perdoar qualquer deslize ou, digamos, teria complacência com alguma medida que incentivasse ou financiasse obras de arte contrárias ao governo do pai ou que difundisse, por exemplo, a diversidade sexual.

Gostaria de ver a Regina “Malu Mulher”, aquela ousada e independente da série da Globo do final dos anos 70 que questionava os costumes da época, à frente da Cultura. Ou até mesmo a viúva Porcina, de Roque Santeiro (1985), valente e atrevida, para enfrentar os perrengues e fofocas que a perseguirão. Mas desconfio que a Regina que vem por aí, se passar no teste, é mais aquela que tinha medo do PT de Lula de 2002 ou aquela que, no ano passado, subiu vestida de verde e amarelo num caminhão de som para pedir votos a Bolsonaro. Teremos que aguardar, mas por ora, mesmo na classe artística, houve um apoio pontual à sua indicação, seja pela carreira e história da atriz, seja pela comparação, isso é, pior do que Alvim, que já havia chamado gratuitamente Fernanda Montenegro de sórdida, e seu discurso de estética nazista, não daria para ser. O convite de Regina Duarte à reverenda Jane Silva para assumir o cargo de Adjunta da Cultura, anunciado na imprensa na sexta-feira, foi uma canelada logo de largada no tal teste …

Assumir um cargo de confiança no governo Bolsonaro exige certo desprendimento. Às vezes penso em Moro e Guedes, isso é, quantos sapos precisam engolir para se manterem em suas posições. Claro, só estão lá porque Bolsonaro teve 55 milhões de votos e ganhou a eleição e os indicou, mas certamente, analisando a biografia e méritos dessa dupla, percebemos que não comungam das opiniões rasas e comportamentos reprováveis do presidente. Mas, na Justiça e na Economia, conseguem promover um trabalho e entregar um resultado compatíveis com suas convicções. Volta e meia, precisam flexibilizar crenças ou fechar os olhos diante de um pedido ou ação de Bolsonaro, mas isso faz parte do jogo. Como cidadãos, estão dando o seu melhor para o país, para a melhoria da segurança ou retomada do crescimento. Sacrifício pessoal faz parte da carreira de homens públicos.

No caso de Regina, acho que a situação é ainda mais complicada. Na Justiça, e na Economia, onde já declarou que pouco sabe, o presidente dá mais rédea a seus ministros dessas pastas, tanto que Guedes até ganhou o apelido de Posto Ipiranga. Na Cultura, Bolsonaro me parece mais confiante com seu “notório saber” e inflexível para dialogar. Levando-se em consideração também a cultura geral do ex-capitão, como agradar alguém que diz que não houve ditadura no Brasil, que nazismo é de esquerda, que o torturador Brilhante Ustra foi um herói nacional e que ainda pergunta, pelas suas mídias sociais, o que seria o “golden shower”? Regina, antes do final do seu período de testes, nos responda: o que é arte sadia? Porque se você praticar a “arte doentia” em sua gestão, será sumariamente exonerada, tá ok!

Mas quem sou eu para decidir quem assume ou não um cargo público? Se for para contribuir e dar um passo adiante, mesmo tendo que aturar desaforos do filho zero dois e as amarras de um governo mais à direita que o bom senso indica, existe mérito e cidadania. Porém, Regina terá que se posicionar e colocar um limite, para que não seja um fantoche ou um troféu para dar certa legitimidade ao governo de plantão, assim como foram parcialmente Pelé para FHC, como ministro extraordinário dos Esportes de 1995 a 1998; ou Gilberto Gil para Lula, como ministro da Cultura de 2003 a 2008.

Aos amiguinhos da esquerda, uma consideração: a direita também tem conteúdo, quadros e legitimidade conferida pelas urnas para desenvolver e implementar uma política cultural de qualidade, democrática, inclusiva e que nos faça avançar como Nação nessa seara que sintetiza a alma do país. Já a extrema direita … bem, basta lembrar o que Goebbels e Hitler fizeram a Alemanha e ao mundo. Regina, boa sorte, seja agora mais namoradona do que namoradinha do Brasil, mas não queria ser você …

Gustavo Junqueira Jr é jornalista e diretor da Conceito Comunicação.

Regina-Duarte-Foto-Reprodução-TV-Globo

Foto: reprodução TV Globo.

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