Acho que a chuva ajuda a gente a se ver

As inundações e enchentes que assolam o Sudeste brasileiro durante a temporada de chuvas entre dezembro e fevereiro, a cada ano, renovam tragédias anunciadas. Vemos atônitos e com cara de não vale à pena ver de novo cidades tomadas pelas águas. Em janeiro de 2020, a Belo Horizonte das montanhas viu seus rios submersos e tapados por concreto imergirem, romperem o asfalto e encherem de água as ruas de bairros nobres da cidade. Trágica novidade: gente rica sofrendo com enchentes.

Essa chuva, bola cantada, que cai com uma gota incessante na tranquilidade do sono das populações menos protegidas e agora também no sono dos bem-nascidos, sempre suscita reflexões, como esse mal traçado texto que escrevo agora. Lembramos das cidades caoticamente urbanizadas, do lixo jogado nas ruas, das moradias em áreas de risco, de barragens que rompem, de políticos e empresas corruptos que desviam dinheiro e também podemos refletir sobre a efemeridade da vida ou como a natureza sempre nos espreita nos recordando de sua força criadora e destrutiva, como um espelho nosso.

Mas logo chega o Carnaval, e toda essa água também serve pra nos molhar de chuva, suor e cerveja, como canta a música de Caetano Veloso, apesar dos pesares e das damares. Esquecemos das tragédias diárias e nos concentramos na folia? Não acredito totalmente nesse clichê. Nossas dores seguem conosco mesmo na festa.

Como escreve Veloso, “acredito que a chuva ajuda a gente se ver”. Ela nos inspira à reflexão e também move artistas como o compositor e cantor baiano e o artista plástico Vinícius S.A, conterrâneo de Caetano, que abre no dia 08 de fevereiro a exposição “Lágrimas de São Pedro” no Sesc Ribeirão.

O artista traz para a cidade sua instalação que já atraiu cerca de 500 mil visitantes em exposições que rodaram EUA, Alemanha, capitais brasileiras e o interior do país. A instalação faz uso de 3,5 mil bulbos de lâmpadas cheios de água que são suspensos por fios de nylon fixados no teto da sala de exposições do Sesc.

A ideia é suspender e pausar a chuva, fazer com que entremos em um ambiente lúdico e poético para sentir, imersos entre lâmpadas em forma de gotas grandes e transparentes, todo a beleza e poder simbólico e necessário da chuva, diz o artista.

Que a chuva ajude a gente a se ver e se conhecer melhor. Mais conscientes do nosso poder de destruir e preservar, amar e criar belezas no mundo, possamos cuidar melhor um dos outros, do redor, do ambiente e da gente!

Rodrigo de Souza Pinto, jornalista

 

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