O vírus e a sociopatia

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Dois assuntos andam assaltando minha cabeça e imaginação nos últimos dias: o coronavírus e sua propagação pelo mundo e esse crime bárbaro ocorrido na Grande São Paulo, no qual a filha é suspeita de ter planejado o assassinato dos pais e irmão. Essa gripe é realmente perigosa como se alardeia? Existe exagero na prevenção? E o que passa na cabeça de uma psicopata ao achar que pode exterminar sua família, como se fosse uma barata, para ganhar um troco?

Fui consultar o estrago feito pela Gripe Espanhola em 1918 no planeta. Não bastasse uma guerra estúpida e cruel em escala mundial que terminaria naquele ano ceifando a vida de cerca de 17 milhões de pessoas, a pandemia teria matado algo em torno de 50 milhões de doentes. Assustador, né? Minha falecida avó era uma menina à época, presenciou o surto em Poços de Caldas e dizia que um dos médicos da cidade fugia dos enfermos com medo da contaminação. O vírus causador da devastação era um Influenza A do subtipo H1N1. No Brasil, foram cerca de 35 mil óbitos incluindo ninguém menos que o nosso presidente de República Rodrigues Alves.

Agora em 2020, até a última quinta-feira, o tal do coronavírus havia matado “apenas” 500 pessoas entre cerca de 25 mil casos confirmados na China. A doença, por mais que queiram conter sua eclosão, tende a se espalhar pelo Globo enquanto cientistas e médicos avaliam melhor sua taxa de letalidade, já estimada em 2%, ou seja, bem abaixo de outras viroses que já nos acometeram. Mas ainda assim uma doença assustadora e que nos faz pensar a respeito do que pode acontecer com a humanidade no futuro com o aparecimento de um vírus bem mais agressivo e incontrolável.

O cinema já explorou o tema em filmes como “Planeta dos Macacos” (2011) ou “Guerra Mundial Z” (2013), nos quais um vírus devasta a espécie humana ou a transforma em zumbis. Às vezes imagino que a Mãe Terra, ou a gloriosa natureza, com sua incrível capacidade de mutação, pode sim buscar um reequilíbrio de forças criando algum vírus que dizime a maior parte da humanidade. Se o homem é o maior extinguidor de espécies, um dia o feitiço pode se virar contra o feiticeiro. Do ponto de vista da evolução das espécies, reduzir a população de homo sapiens de 8 bilhões de indivíduos para uns 30 milhões de sobreviventes não traria benefícios para a vida na Terra?

Longe de mim desejar essa hecatombe, mas no campo das análises de riscos de extinção da nossa espécie, me parece que entre a colisão da Terra com um asteroide, a erupção de um vulcão que nos sufoque com cinzas e a explosão incontrolável de uma forma biológica microscópica assassina que nos derreta as células, essa última seria a mais provável. Bem, temos a ciência a nosso favor, que venham a cura e as vacinas salvadoras, menos para os terraplanistas que não acreditam nelas.

Sociopatia

Mudando de vírus para transtornos de personalidade, chega a ser incrivelmente chocante o crime ocorrido na última semana na Grande São Paulo no qual, de acordo com as informações descobertas pela polícia até o momento e divulgadas na imprensa, uma filha tramou o sequestro, tortura e execução dos próprios pais e do irmão mais novo, todos eles queimados e abandonados no carro da família em local ermo. Com a ajuda da namorada e de comparsas, a filha Ana Flavia Gonçalves não achou nada demais em trucidar seus familiares para colocar as mãos no dinheiro que haveria no cofre da casa e ainda ficar com a herança e um suposto seguro de vida.

Ora, só é possível levar adiante um plano macabro como esse alguém caracterizado por um extremo egocentrismo, sem qualquer apego a valores morais e com total indiferença a sentimentos e opiniões alheias. Nem Suzana Richthofen teve tamanha frieza e ao menos poupou seu irmão. O que mais me estremece é saber que Ana Flavia e sua companheira Carina Ramos tiveram diversos momentos para se arrepender da ideia hedionda, restringindo o estrago a uma tentativa frustrada de assalto, mas insistiram no projeto ignominioso até o fim. Na remota hipótese de que lograssem êxito no intento, seriam capazes de levar adiante uma vida na qual repousamos a cabeça no travesseiro e dormimos tranquilos? Qual seria o próximo brilhante empreendimento da dupla?

Incomoda saber que o socioapata, ou psicopata, pode estar bem mais próximo de nós do que gostaríamos. O casal Romuyuki e Flaviana Gonçalves provavelmente criaram sem saber a filha Ana Flavia com esse distúrbio mental e jamais poderiam prever que acabariam seus dias seviciados até a morte a mando ou com o consentimento da filha. Talvez um perigo relevante na sociedade moderna resida aí: temos milhares de sociopatas espalhados nas ruas, casas e ambientes profissionais, com algum tipo de convívio junto a nossas famílias e amigos, esperando ou arquitetando uma oportunidade para agir.

Claro que não precisamos entrar em paranoia, desconfiar de todos os esquisitos ao redor e trancar a porta do quarto à noite com medo dos nossos próprios filhos. Mas um pouco mais de cuidado e capacidade de observação, bem como uma busca por valores mais solidários e atinentes ao autoconhecimento, podem nos ajudar a evitar tragédias como essa na Grande São Paulo. E fica a pergunta: ter um filho psicopata seria apenas um azar do casal, uma estatística fria, o produto de uma criação e educação inadequadas ou simplesmente um carma?

Bem, para não finalizar essas linhas de forma tão cinzenta quanto seu conteúdo, viremos a página do vírus letal e da sociopatia que aterroriza.  A vida humana continua sim a pulsar vigorosa nesse planeta e, por mais que episódios de maldade pipoquem aqui e acolá nas mídias (sociais e antissociais), a bondade, a vontade de viver e o desejo de ajudar e de construir prevalecerão entre nós. Que alívio, melhor assim!

Gustavo Junqueira / Jornalista

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